Durante
esse semestre na nossa aula de Corpo e Voz I, nossa professora Renata nos
apresentou e nos convidou para participarmos de seu mestrado. Foi assim que eu
conheci o trabalho das ternas, que nada mais é, do que atividades sensório expressivas,
que busca o mais alto grau de expressão que seu corpo pode atingir com simples
movimentos. Focado na ação do corpo, as ternas possuem um olhar mais voltado
para o pessoal e criativo, cuidando do bem-estar e da saúde do corpo, mexendo
muito com as emoções, imaginação e memória. Ou seja, as ternas foram criadas
pela nossa professora não só para explorarmos cada parte e movimento do nosso
corpo, mas também com um objetivo mais voltado para o pessoal, me instigando a
desenvolver a percepção para com meu próprio corpo, com as dores, alongamentos
e dificuldades. A partir disso eu comecei a ter um outro tipo de visão quando o
assunto era meu corpo, meu instrumento de trabalho, pensando em estar mais
disposto nas aulas, minha preocupação com a minha alimentação e com meu sono
mudaram, com isso ao longo das aulas pude notar a minha melhora nos exercícios.
Temos
uma divisão de 8 ternas: Braço, Alinhamento, Apoios/Projeções, Enraizamento,
Máscara/Rosto, Sonoridades, Pele e Vísceras.
Terna
de Braços:
Essa
terna foi trabalhada conosco logo no primeiro dia de aula, de início fiquei um
pouco confuso, na minha cabeça eu já sabia todos os movimentos que meu braço
conseguia fazer. Porém foi aí que eu me enganei, percebi que todas as ações que
eu realizava com meus braços eram superficiais e normais. Com a orientação de
nossa professora, ela nos pediu para sentirmos cada osso do nosso braço que se
movimentava quando fazíamos determinada ação. Logo de início pensei nos ossos
que já eram conhecidos por mim – Rádio, Ulna e Úmero – pensei também no
osso do cotovelo que realizava a articulação do meu braço. Contudo, indo mais a
fundo nesses movimentos, pude perceber que cada ação que eu realizava com meu
braço gerava uma reação no meu ombro, e eu pude sentir mais dois ossos
trabalhando – Escápula e Clavícula – a partir dessa descoberta fiquei surpreso,
pois eu não imaginava que um osso
localizado no meu ombro e outro na parte superior das minhas costas
fossem estar diretamente ligados com o movimento dos meus braços. E é claro
também que focamos em movimentos que nossas mãos podem realizar, ligado as
articulações que existem nela, apalpando toda a minha mão consegui sentir cada
osso e cada junção entre eles e assim descobri o – Carpo e Metacarpo. Ao
final da aula, nossa professora realizou com a nossa turma um tipo de
relaxamento, para que pudéssemos sentir o nosso corpo após uma aula de trabalho
voltado para ele. Realizei algumas anotações sobre esse processo, estava mais
leve, preparado e concentrado para realizar as atividades propostas. Lembro-me
de sentir cada parte do meu corpo, cada músculo, osso e articulação mais
disposta para ser trabalhada. Após realizar uma grande descoberta com meu
próprio braço e fazer o relaxamento, eu estava com uma sensação muito boa de
paz, felicidade e tranquilidade comigo mesmo. É como se meu corpo estivesse
totalmente alongado, leve e energizado. Sentir todos os músculos do meu corpo é
uma sensação maravilhosa.
Terna
de Alinhamento:
Para
mim, trabalhar com essa terna foi algo um pouco difícil, tinha a plena noção
que meu corpo não possuía um alinhamento exemplar. Eu me sentava ou me
posicionava em pé, o meu costume era soltar todo o peso em cima do meu quadril,
e assim minha coluna não ficava em uma posição ereta, e meu alinhamento ficava
errado. Nessa aula eu conheci todo o trabalho de um osso que se localiza na
parte inferior da pélvis, e que está diretamente ligada com a postura do nosso
corpo, esse osso muito importante recebe o nome de ísquio, e é ele que
nós devemos sentir quando estamos sentados e queremos endireitar a postura. A
frase “- Senta nos ísquios!” esteve muito presente nesses seis meses nas nossas
aulas de corpo e voz, tanto com a nossa professora Renata quanto com a Dirce.
Além de exercitamos os ísquios, o alinhamento trabalha também com outras partes
do nosso corpo, outro osso bastante importante se localiza na bacia e recebe o
nome de crista ilíaca, e é responsável por sustentar o peso do corpo e a
locomoção, a capacidade de mover-se de um lugar para outro mantendo o
equilíbrio. Para trabalharmos com o alinhamento do corpo de uma forma mais
prática, nossa professora nos passou um exercício que focava nas direções do
nosso olhar juntamente com a direção da nossa bacia – crista ilíaca. A
atividade se baseia em exercitarmos a direção do foco do nosso olhar em
diferentes velocidades e intenções enquanto que o quadril indica uma outra
direção, realizando torções aproximamos a crista ilíaca com a nossa escápula
oposta. Gostei do exercício, pois eu pude perceber que a postura de um ator
pode se manter mesmo quando ele realiza torções e movimentos com diferente
tipos de velocidades, basta apenas prestar atenção nos ísquios e na direção do
quadril. Hoje eu posso dizer que possuo uma postura/alinhamento mais aceitável
para um ator, sempre que eu me sento procuro corrigir meu corpo sentindo meus
ísquios, o mesmo ocorre quando estou de pé mantendo minha coluna ereta, claro
que as vezes eu me pego com meu peso totalmente solto sobre meu quadril, mas
logo eu me corrijo. Desenvolvi uma percepção que antes eu não tinha, possuo um
olhar para o meu eu interno, ajustando cada parte do meu corpo, para que assim
eu possa atingir um estado de bem-estar comigo mesmo.
Ternas
de Apoios e Projeções:
Essa
terna visa o trabalho do ator tendo noção do seu movimento e dos seus
sentimentos de expressão. Como o próprio nome já diz, os exercícios foram
realizados focando na nossa descoberta para com os nossos tipos de apoios no
espaço, juntamente com as projeções que eram feitas em cima disso.
Lembro-me
que foi uma aula gostosa de se trabalhar, aprofundando no trabalho de percepção
do corpo do ator, com seus movimentos e sentimentos nossa professora nos deu 2
bolinhas que ficariam posicionadas em 4 partes específicas das nossas costas (glúteos,
sacro, abaixo da escápula, no meio da escápula) enquanto nós estaríamos
deitados sob elas e sustentando as bolinhas nessas partes por um tempo. A
reação que eu tive ao retirar as bolinhas dos 4 lugares foi a mesma, eu sentia
como se meu corpo todo estivesse esparramado no chão, era como se minha
percepção estivesse mais aguçada e cada parte do meu glúteo, bacia e costas
estavam distensionados e eu conseguia senti-los perfeitamente, era uma sensação
muito boa. Ainda nessa aula exercitamos os apoios, realizamos trabalhos com 4,
3 e 2 apoios no espaço e juntamente com isso, trabalhamos com a noção de tempo
nos movimentos. Um exercício bastante interessante sobre isso, era um no qual
nós tínhamos montado uma coreografia onde nós ficávamos de barriga para cima,
de lado e de barriga para baixo, realizando a transição de cada posição em 4 ou
2 tempos, e em cima disso nós tínhamos que explorar nossos apoios e projeções
da sala.
Foi
um exercício interessante, acho importante trabalhar os apoios e projeções, o
diferencial é a forma como isso foi trabalhado durante a aula, toda a forma
como nosso corpo foi “acordado” e deixado mais perceptível com o uso das
bolinhas foi o ponto auto daquele encontro. E exercitar tudo isso juntamente
com a ideia de tempo foi muito valioso e com certeza eu posso dizer que foi um
ganho na minha formação como ator.
Terna
de Enraizamento:
Essa
é uma terna muito importante, e que está diretamente ligado com todo o processo
de aprendizagem nas ternas de apoio e projeção, ou seja, tudo que foi aprendido
na aula anterior, foi usado juntamente como um aprofundamento dessa terna.
O
enraizamento nada mais é do que a forma que nosso corpo nos mante
energeticamente conectados com a terra. O ato de se enraizar está ligado com o
fato de sentirmos nosso corpo em contato com o chão, portanto mais uma vez
temos a noção de percepção do espaço que o corpo do ator habita. Para buscarmos
nosso enraizamento tivemos que nos concentrar a cima de tudo no nosso
equilíbrio, posicionando de forma correta o pé no chão, abrindo bem os dedos,
flexionando os joelhos e deixando o corpo alinhado da maneira correta
chegávamos ao enraizamento e alcançávamos um ponto de equilíbrio que dava até
para ser manipulado, forçando até que seu equilíbrio chega jogando todo o corpo
para frente e abrindo os braços, imitando um avião voando.
Como
já foi dito, ao meu ver essa aula é uma continuação da aula anterior de apoios
e projeções, afinal trabalhamos o enraizamento buscando coisas que haviam sido
vistas na aula passada. E isso para mim foi algo primordial, acho importante
essa ideia de continuidade do assunto, coisas que são trabalhadas antes vão
sendo recapituladas com o decorrer da matéria. Com isso é difícil esquecermos
do trabalho de algo, e o mais importante é realizarmos exercícios que utilizem
do máximo de ternas possíveis.
Terna
de Rosto/Máscara:
Trabalhar
essa terna foi muito divertido, durante uma aula bastante extrovertida nós
montamos diferente tipos de expressão, e eu posso dizer que nunca tive noção de
que meu rosto fosse capaz de montar tão diferentes tipos de máscaras. Como uma
forma de aquecimento, em duplas tínhamos que imitar a expressão do nosso colega,
e isso ajudou muito como uma forma de “acordar” todas as partes da nossa
máscara facial.
Para
buscarmos uma relação com nosso rosto, de início nós passamos a mão em todas as
partes dele com o intuito de sensibilizá-lo, apertando alguns músculos,
sentindo ossos, e principalmente
sentindo cada linha do rosto e a partir dessa linha marcada experimentando
diferentes intensidades na composição e na expressão do rosto. Para auxiliar,
nossa professora nos mostrou algumas fotos de máscaras e alguns textos que nos
serviram de suporte na hora da montagem das nossas próprias facetas. Ela nos apresentou
5 formas diferentes de máscaras – simétrica, assimétrica, curta e larga,
estreita e cumprida, aberta.
Diante
disso nós iniciamos a exploração do nosso rosto, em frente ao espelho montamos
máscaras baseadas nas que nos foram passadas. Confesso que surgiram coisas bastante
interessantes e divertidas, todos da turma levaram muito a sério esse exercício
e o realizaram de uma forma bem despojada, sem se preocupar com estereótipos ou
com cara feia – careta. Como um tipo de desdobramento desse trabalho, existiram
tentativas de desenvolvimento de vozes para essas máscaras, ou seja, de acordo
com o rosto que estava sendo montado surgia uma voz de velho ou de novo, de
homem ou de mulher, e isso só tornou a aula mais produtiva.
Ao
final dos trabalhos nessa terna eu estava surpreso comigo mesmo. Fiquei
satisfeito comigo e acredito que atingi o propósito com essa terna, com certeza
posso dizer que ela mudou meu jeito de me expressar, a partir dessa aula sempre
me pego realizando alguns tipos de caretas em frente ao espelho, descobrindo
mais formas que meu rosto possui e eu ainda desconheço.
Terna
Sonoridades:
Quando
fiquei sabendo que trabalharíamos na aula sons achei estranho, mas ao mesmo
tempo fiquei entusiasmado pois já esperava por uma aula bastante prática e
agitada. Achei estranho pois não esperava que sonoridades estaria presente
dentro do conteúdo de ternas, acho que porque até aquele momento eu estava
vendo as ternas como algo que só trabalhava com a busca do meu ponto de
controle e a realização de movimentos expressivos e ao meu ver realizando
sonoridades eu só estaria trabalhando com a minha voz e não com os movimentos
do meu corpo.
Porém
foi aí que eu me enganei, nessa aula nossa professora apresentou outras formas
de realizar sons com movimentos do corpo. Quando eu vi isso, para mim foi algo
tão óbvio que eu me senti até meio sem graça, mas achei engraçado o fato de eu
não ter pensado nesse simples exercício de brincar com as sonoridades usando os
sons do nosso próprio corpo, em diferentes velocidades e intenções.
E
foi exatamente nisso que nosso estudo foi baseado naquele dia, brincamos com
todos os tipos de sons que o nosso corpo produzia, junto a isso realizamos uma
série de movimentos que retomavam outras ternas. Sons de bocejo, sons de chuva,
sons da nossa respiração e sons de vento – juntamente com o movimento do vento,
ou seja, a fiscalização também foi trabalhada.
Terna
de Pele:
Essa
terna foi realizada em uma aula muito pessoal, tivemos que fazer uma
autodescoberta com a atenção voltada par nós mesmo, para sentirmos a pele de
cada parte do nosso corpo. E para eu realizar esse processo foi algo muito
difícil, porque por mais que eu tentasse estimular e sentir minha pele eu só
conseguia ter a sensação do meu músculo se alongando e aquecendo, foi algo
totalmente diferente para eu sentir minha própria pele.
Para
estimular isso a Renata colocou uma música e nos deu quatro qualidades –
carinho, agonia, pressão e liberdade – e nós tivemos que compor movimentos
sentindo a música e trazendo essas qualidades para nossos movimentos voltados
na percepção da pele, e isso me ajudou muito a sentir todos os estímulos que
minha pele traz. Então a questão de a música estar presente na execução dessa
aula me ajudou e facilitou para que eu alcançasse o meu objetivo. Importante
ressaltar que nossa pele sente pressão e temperatura, levando isso em
consideração fizemos a associação mais uma vez com as ternas de apoios,
projeções e enraizamento. Sempre trabalhando com a improvisação livre com
música. Retomamos também os barulhos de chuva que fizemos na aula de
sonoridades.
OBS:
vale ressaltar que trabalhamos muita nessa aula com o EU CORPUS – a
sensibilização do nosso próprio corpo de duas perspectivas: sentir e ser forma.
E também com o CORPUS EXPRESSOS – a organização e o reconhecimento do
nosso próprio corpo.
Terna
de Vísceras:
E
para finalizarmos esse conteúdo das ternas estudamos e trabalhamos com a terna
de vísceras, e como início buscamos através do toque sentirmos todos os nossos
órgãos, o lugar que eles ficam no nosso corpo e focamos principalmente na
região do abdômen.
E
focando nesse trabalho voltado para a região abdominal nos foi passado um
exercício onde o objetivo era realizar toda uma coreografia que foi elaborada
pela Sâmara - professora ajudante que
nos acompanhou durante todo esse processo das ternas e nos ajudou bastante
auxiliando sobre o modo correto de realizar os exercícios mantendo a postura
correta do nosso corpo. Então tivemos a realização dessa coreografia toda
voltada para os órgãos e para o trabalho do abdômen e que foi acompanhada por
uma música muito boa da banda Teatro Imagem - “Eu Não Sei Na Verdade Quem Eu
Sou.” E isso mais uma vez me ajudou muito, a presença da música para a
realização dos exercícios sem dúvida nenhum é um fator que faz todo o
diferencial na composição do meu trabalho como ator.
E
assim finalizamos o nosso estudo das Ternas, com certeza foi um aprendizado
muito grande e apesar das dores que foram sendo acumuladas durantes as aulas,
hoje eu digo que valeu a pena cada coisa enfrentada. Existiram algumas ternas
que eu não me dei tão bem, não entendi direito o conceito por trás, porém a
maioria das dúvidas que eu tinha foram resolvidas durante o desenvolvimento das
aulas. Contudo, posso dizer que em um todo eu gostei muito de realizar esse
trabalho que foi primordial na minha composição como ator.
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