Ternas: O corpo que fala


   Meu primeiro contato com aula corporal foi aos 13 anos, mas nunca levei a serio essa importância de cuidar e educar meu corpo com hábitos saudáveis, mas foi em São Paulo que tive meu primeiro contato com o estudo da vida e obra da coreógrafa e dançarina Pina Bausch, que através do trabalho com o corpo mostra as relações entre os seres humanos, os seus fracassos na comunicação cotidiana, questiona seu significado, descobri seu vazio e com ele o fator distorcido das relações dos seres humanos de hoje. A parti do momento que conheci o trabalho maravilhoso dela, minha dedicação, disciplina e entrega se tornou outra. Eu tenho um alongamento favorável e uma disponibilidade por inteiro para aula corporal, sou encantada pelas possibilidades de criação que a disciplina de exercitar o corpo nos possibilita, e as ternas tem sido minha maior aliada na busca diária do meu alinhamento, postura e alívio das dores na coluna e ombro. Além de tudo isso, as ternas tem me auxiliado no estudo das possibilidades de criação cênica e desempenho da minha expressividade corpórea, não só para a personagem que estou atuando agora, como para toda a trajetória que ainda está por vim. Hoje tenho outra consciência corporal que me possibilita ter um foco maior na minha ação,  precisão e harmonia nos movimentos, assim trabalhando a sensibilização do corpo, o conhecimento anatômico e a experiência do movimento.
 O trabalho com as ternas tem três ''qualidades'' de preparação sensível do corpo: EU CORPUS - percepção de você mesmo; CORPUS EXPRESSOS- reconhecimento do seu próprio corpo (organização do próprio corpo); CORPUS VISTUS- como eu quero que o publico me veja (parte do ponto de vista do outro, para isso meu corpo deve está em harmonia).  Pensando nisso, pensar em ternas é perceber seu corpo no espaço, perceber seu alinhamento, ou a falta dele, seu modo de pisar no chão ou até mesmo como é seu andar, pode parecer simples, mas a partir do momento que você tem contato com as ternas pela primeira vez, seu olhar para o seu corpo muda muito, a experiência com o estudo das ternas, tanto nas nossas rodas de conversas, quanto nas práticas, é algo de descoberta, desconstrução e construção diária. A parti das suas aulas e da Dirce pensar no meu corpo passou a novamente não ser algo banal, comecei a pensar no que tinha certo bloqueio, sair da minha “zona de conforto" passou a ser ainda mais o meu estilo de vida, assim sendo meta pra criar um leque maior bagagem de expressão corporal, bagagem essa que são esses estudos do corpo para usar depois em cena, como ter precisão e tônus em um movimento, como trabalhar a fluidez e tempo que uma personagem que está se recuperando de um acidente, voltando os seus movimentos, gastaria para levar um copo de água até a boca, não é o mesmo movimento do cotidiano, ele exige uma bagagem e uma disciplina de estudo e preparação para ser executado em um espetáculo.
  Nas aulas passei a conhecer cada osso, articulação e todo o meu corpo e a entender melhor a importância do estudo da anatomia para potencializar o meu íntimo com meu corpo, me possibilitando quebrar as barreiras que fui criando na meu percurso até aqui, criei sem nem tentar executar o movimento, pois esse medo sempre me limitou, por isso hoje em dia me concentro, me entrego e vou tentando cada dia um pouco ultrapassar esse limite que criamos por medo de errar ou de se machucar, no entanto vou executando com muito cuidado, respeito ao meu corpo e alongamento, com essa consciência vou tendo mais liberdade e menos medo de construir um movimento. Pois durante toda minha trajetória até aqui, entre Bahia e São Paulo,  não tinha essa consciência de entrega que é extremamente necessária para estudar de um modo tão sensível e rico o corpo, assim focando a ação, a sensibilização do corpo, o conhecimento anatômico do movimento e a experiência do movimento pessoal e criativo. Movimento pessoal foi toda essa investigação que fizemos desde o andar enraizando os pés, um exemplo é começar apoiando, fazer a ‘‘concha’’ e por fim descer os maléolos, e a partir desse contato que comecei a me atentar no meu movimento pessoal, alinhar o corpo e o eixo, e manter essas praticas no dia a dia, já o  movimento criativo para mim é está totalmente entregue para explora o caráter expressivo do movimento, a liberdade que criamos a partir do conhecimento para por em pratica o corpo que fala, vivenciar cada fase do movimento com a leveza de um pássaro, pois a voz é uma manifestação corpórea e deve ser aperfeiçoada a partir do estudo e vivencia .
"Voar é para os pássaros, os sonhadores e as nuvens. Mas quando os sonhadores assumem a posição de professores, e conseguem transmitir suas ideias e conceitos a ponto de transforma-los em movimentos conscientes, seus alunos sentem-se pássaros. Seus espíritos chegam as nuvens.( ... ) Gente é como nuvem, sempre se transforma ... " Angel Vianna (A escuta do corpo, pág 57)
Alguns exercícios feitos em sala tem me ajudado muito e virou exercício de rotina em casa, ao acordar e ao dormir quando não tenho aula corporal, meu corpo senti falta e eu não quero se desligar novamente, isso é bom pra mim, para minhas personagens, para saúde do meu corpo, sem contar que pra meu corpo se "acostumar" e ganhar a forma “correta no espaço”, preciso repeti os movimento e as posições de conforto e desconfortos sempre, ter uma disciplina, como disse anteriormente, fazer parte da rotina.
Essa consciência da respiração me possibilitou um maior apoio vocal, consecutivamente esse trabalho me ajudou no espetáculo Pulse, que é uma peça musicada, a qual tive muita dificuldade no inicio de sustentar a vogal, eu enquanto atriz pude perceber essa melhoria na duração ao acionar conscientemente o diafragma, pois sempre acabava a frase antes por não ter folego suficiente, depois disso pude perceber a grande diferença, e tudo isso só foi possível através dos exercícios feito em aula, deste modo essas praticas refletiram no aumento do meu fluxo de sangue, oxigênio e flexibilização dos tendões, ligamentos e músculos, assim ampliando a flexibilidade das pregas vocais para as sustentação no decorrer das modificações da frequência.
  Já a partitura corporal rítmica foi algo muito interessante, é algo que sempre trabalhamos muito com a Dirce, e coincidir nas suas aulas foi muito bom para entender as maneiras e variações de trabalhar um ‘‘mesmo’’ exercício e a até mesmo a nossa capacidade de criar outros caminhos para a mesma ação. Nas nossas aulas que envolvem ritmo principalmente em grupo sempre tive muita dificuldade, geralmente estou muito acelerada, mas através desse trabalho entendi a importância e necessidade de saber administrar esse tempo e está em sincronia com o grupo, ter uma maior harmonia entre nossos movimentos e sons, assim trabalhando memoria, memoria essa que também parte do corpo (memoria corpórea), porque sempre tínhamos que lembrar os movimentos feitos para está em sintonia com o grupo, sem esquecer que nesses exercícios de criar uma partitura somática, sempre trabalhei com muita maestria a minha criatividade, tônus e espacialidade, assim tendo essa consciência do corpo no espaço e em como ocupa-lo. Foi sempre uma delicia entender e experienciar todos exercícios, uma verdadeira investigação cênica que reverbera no meu trabalho como atriz, pois é importante essa troca, essa escuta, para não atropelar a fala do outro.
O trabalho do corpo pelo espaço com concentração, alinhamento, e consciência respiratória, eixo, ritmo, me possibilitou ‘‘educar’’ a minha fluidez para não ter quebra do movimento, assim ficando algo mais orgânico e com muita mais coordenação. Toda via o exercício de sentar nos ísquios também foi muito importante vendo que me possibilitou alivio de dores na coluna e um melhor alinhamento e postura.
  Essas rotinas de cuidado do corpo e voz já era algo que sempre pratiquei em casa, mas que de um ano pra cá tinha diminuído, hoje com o nossos estudos e vivencias tenho voltado o estudo do corpo e suas múltiplas possibilidades de criação, assim levando esses estudos também para fora da sala de aula.
  Sempre me dediquei e estive entregue as aulas, então passar pelas oito ternas (enraizamento, braços, alinhamento, apoios e projeções, sonoridade, pele, articulação e vísceras) foi com muita vontade de está ali, curiosidade de aprender e vivenciar no meu corpo cada movimento proposto, pois gosto muito de trabalhar o meu corpo, uma vez que ele é algo de extrema importância para mim enquanto ser humano e atriz, afinal esse é o meu instrumento de trabalho, é oque me liga ao publico através da presença corporal, por meio do movimento do corpo e da voz. Fernando Aleixo (Dez. 2004) diz: “a voz do ator existe na sabedoria do corpo. É o corpo que sabe o caminho da produção vocal, do movimento e da sua expressão” (p. 1), assim o dialogo que proponho com meu corpo não pode está desconectado com a minha voz, desta forma trabalhar corpo e voz foi sempre uma troca riquíssima.

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