Ternas: O caminho para a saúde e expressividade corporal


A primeira impressão que tive a respeito das Ternas foi que elas seriam irrelevantes na minha vida. Eu honestamente não conseguia enxergar a necessidade de se focar tanto no meu próprio corpo. Quando eu era mais nova não costumava praticar esportes e nem fazer muitos exercícios físicos, tornando-me uma criança muito “parada” e despreocupada quando o assunto era o meu bem estar, o que contribuiu para o meu pensamento de que refletir sobre e prestar atenção no meu próprio corpo era algo desnecessário e ter consciência corporal não mudaria muita coisa. Além de que todos esses anos descaso resultaram em uma péssima postura.
A meu ver, no curso de teatro, um dos principais objetivos é justamente desenvolver melhor sua expressividade corporal. Então resolvi deixar de lado meu preconceito e dar uma chance as Ternas.
Começamos com as Ternas de Braço, trabalhando para sentir o peso do mesmo, o que me chamou a atenção por ter me feito prestar atenção no chamado “peso passivo” que pode ser notado quando eu estou relaxada e não coloco força nos meus movimentos; em perceber quais movimentos eram voluntários e quais eram involuntários; exploramos diferentes formas de se expressar usando as mãos e os braços, com o auxílio da escápula e até mesmo do tronco com a ajuda da teoria passada em sala, na qual vimos a anatomia dos braços. Só aqui, já deixei de lado a ideia que eu tinha de que a parte teórica não faria muita diferença.
As Ternas de Apoios e Projeções foram uma das minhas favoritas. Ela me permitiu criar novas formas com meu corpo, foi quando eu realmente deixei minha criatividade a solta. Trabalhamos os níveis alto, baixo e médio, com dois, três, quatro apoios para criar diferentes imagens pelo espaço. Essa terna também me ajudou a descobrir coisas sobre meu corpo que eu sabia, me fez ter noção do meu encurtamento. Sempre achei que não tinha muita força no abdômen, mas descobri que é bem o contrário e que as posições que precisam de mais força no abdômen são as mais fáceis para mim. No fim, descobri que a parte do meu corpo na qual eu tenho menos força e mais dificuldade para auxiliar no meu equilíbrio são meus braços, o que me foi bastante útil em exercícios de outras aulas, pois já sabia quais eu conseguiria fazer com facilidade e em quais eu teria mais dificuldade.
As Ternas de Rosto também foram divertidas, brincamos com as expressões, trabalhamos os músculos do rosto. Aprendemos como fazer as máscaras largas, mais encolhidas e etc. Fizemos muitas caretas, sensibilizamos o rosto, tentamos copiar as expressões dos colegas. Essa Terna me ajudou a perceber que quando eu sorrio eu costumo levantar apenas um lado da boca e que mesmo sem perceber eu costumo arquear minha sobrancelha.
As Ternas de Pele são as que eu posso dizer que detestei. Precisamos tocar e estimular nossa pele com arranhões e carícias, o que me fez lembrar o porque de eu odiar tanto que pessoas me toquem sem minha permissão. A sensação era de que tinha alguém invadindo meu espaço, mesmo que aquela pessoa fosse eu mesma. Precisamos trabalhar com o rosto também, com expressões que combinassem com o tipo de toque, para mostrar como nos sentíamos com cada arranhão e cada carícia. Acho que o que me irritou foi o fato de que eu nunca tinha prestado atenção nas sensações que a pele me proporciona, e ficar tão consciente disso me deixou ansiosa e desconfortável. Apesar de tudo, não vou negar que as Ternas de Pele estão sempre presentes nas nossas vidas, mesmo sem percebermos.
As Ternas de Alinhamento foram surpreendentemente divertidas. No começo, fiquei com um pouco dessa aula, considerando que tenho um problema na coluna, então pensei que essa aula iria me deixar com milhares de dores e incrivelmente desconfortável. Mas não foi bem assim. Tivemos exercícios mais “simples” como andar para um lugar olhando para o outro ou andar na direção indicada pelo nosso olhar. Também aprendemos mais sobre os ísquios, como usá-los para sabermos se estávamos no nosso alinhamento ou não.
As Ternas de Vísceras tinham como objetivo nos fazer apalpar os órgãos e sentir como tudo se movia enquanto respirávamos, e demos um foco ao abdômen. Nesse dia, fizemos uma coreografia incrivelmente complicada. Também trabalhamos as articulações, começando tentando usar somente uma, depois duas, três e íamos aumentando, sem perder a noção de qual e com quantas estávamos trabalhando.
As Ternas de Enraizamento foram as mais simples, porém foi a aula mais cansativa. Eu não tive muita dificuldade em manter meu equilíbrio, apesar de no começo não conseguir fazer o “arco do pé” perfeitamente para me auxiliar mais um pouco. Trabalhamos com bolinhas, colocando o pé em diferentes posições para que pudéssemos sensibilizar o máximo o possível e comparar as partes sensibilizadas com as não sensibilizadas, e a diferença era óbvia. Essa aula me ajudou a perceber que, mesmo sem perceber, eu já começava a mudar meu alinhamento automaticamente quando ficava em determinadas posições antes de tentar me equilibrar, porém tinha dificuldade em manter esse alinhamento quando tentava me equilibrar ao apoiar apenas um dos braços no chão, já que acabava virando de lado e caindo. Apesar de ter um bom equilíbrio, eu ainda precisava do alinhamento para conseguir me manter por mais tempo. Após as dicas adquiridas nesse dia, eu conseguia me manter equilibrada por mais tempo do que antes.
Nas Ternas de Sonoridade trabalhamos não só com os sons que conseguíamos fazer com a voz, como também com os sons que conseguíamos fazer com o corpo. Desde de sons que fazíamos com a respiração, até bocejos. Levamos nossa voz do grave ao agudo, imitamos o vento durante um exercício no qual deveríamos fingir que estávamos passando uns pelos outros, como o próprio vento. Depois, usando as nossas mãos, batemos nos nossos corpos, de olhos fechados e andando com o objetivo de prestar atenção nos sons ao nosso redor e reproduzir uma chuva do cerrado: lenta, forte, lenta.
Aprendemos também a diferença entre o “eu corpus”, que eu entendi como sendo a percepção do seu próprio e de si mesma; o “corpus expressos”, que eu entendi como sendo o estudo da forma, as referências que temos para conseguir descobrir o que somos capazes de fazer ou não; e o “corpus vistos”, que eu entendi como sendo a forma como você quer se mostrar para sua plateia e como eles te enxergam.
Fizemos exercícios que nos ajudaram a comparar nosso desenvolvimento em relação a metade do semestre e ao fim do semestre, refletindo sobre tudo que aprendemos. Um deles, que fizemos no meio do semestre, foi responsável pela minha aula favorita. Consegui tentar posições que nunca tinha tentado antes, obtive um conhecimento maior sobre o meu encurtamento, descobri que algumas coisas que pensei que nunca conseguiria fazer, na verdade eu poderia fazer com tranquilidade e sem dores. O maior desafio foi ter dado uma quase cambalhota, que é uma coisa que sempre me apavorou.
Todo esse trabalho com as Ternas me fez mudar todo meu pensamento a respeito do meu corpo. Minha visão realmente começou a mudar ao longo do semestre, após algumas aulas e quando eu finalmente consegui compreender que as Ternas poderiam me auxiliar com o meu desenvolvimento artístico, investindo na minha expressividade e saúde corporal. Comecei pensando que as Ternas só eram importante pois eu precisava delas para me tornar uma boa profissional, para fazer um trabalho de qualidade e etc, mas ai percebi que elas são importantes na saúde também, especialmente quando notei que eu havia começado a corrigir minha postura sem nem ao menos perceber, quando usava os exercícios passados em aula para conseguir relaxar alguma parte do corpo ou ajudar com alguma dor.
As Ternas me ajudaram a ir de uma pessoa incrivelmente desleixada, para uma pessoa que agora presta atenção no próprio corpo e tenta deixá-lo mais saudável.

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