A princípio, ao ser
apresentado às ternas, tive certo receio, pois não desconfiava o que era. Com o
tempo pensei que fosse uma série de exercícios com o corpo, que servia para
alongar e relaxar os músculos, no entanto, era algo maior que isso. Ao longo do
texto, falarei sobre a experiência que tive durante o semestre, concluindo ao
final.
Iniciando com a Terna de braço, houve um exercício onde
abandonamos o peso dos braços e os movimentamos passivamente, através do
movimento do tronco, logo após isso, andamos pelo espaço enquanto continuamos o
movimento. Porém, depois foi instruído para que, durante a movimentação dos
membros, sustentássemos o peso deles no ar. Para mim, esta oposição foi de
início estranha, mas achei interessante porque esta mudança súbita fazia com
que eu me sentisse alerta sobre algo, cuja sensação foi trabalhada no jogo em
que devamos “pegar um copo d’água” (consiste em sustentar o braço durante o
movimento passivo, de forma que parecesse pegar um copo).
Mesmo sendo algo
simples o que foi trabalhado, notei que os movimentos trabalhados tinham por
trás uma intenção, por mais que estes sejam passivos.
Continuamos com a Terna de alinhamento, onde tivemos uma
atividade interessante onde a gente caminhava e com os olhos a gente focava
para onde iríamos virar e, logo em seguida, a cintura virava na mesma direção,
e por assim ia. Logo em seguida, foi nos instruído para que a gente caminhasse
de maneiras diferentes, mas que prestássemos atenção em nosso alinhamento
enquanto o fazia. Com isto, trabalhamos bastante nosso alinhamento, seja no
caminhar para algum lugar ou permanecer em um mesmo, mantendo a postura e nos
mantendo nos ísquios.
Em outra aula, foi
perguntado se havíamos cuidado do corpo em nossas últimas semanas e se fizemos
alguns movimentos aprendidos em aula. Respondi que sim, e foi aí que percebi a
mudança que o trabalho com as ternas fez comigo, por exemplo, eu repetia em
casa exercícios que havia aprendido em aula e buscava manter a postura em todo
o momento, o que não gostava de fazer voluntariamente.
A próxima terna
trabalhada foi a Terna de apoios e
projeções. Houve um trabalho com bolinhas de borracha as quais deitávamos
encima; as colocávamos nas costas, depois mudávamos para os glúteos, sacro e
entre as escápulas. Após o exercício, dava para perceber uma diferença no lugar
onde as bolinhas faziam pressão, como se estivesse mais descansado o músculo,
dando uma sensação boa.
Houve depois um
exercício que deitávamos no chão e apoiávamos diferentes partes do corpo,
aumentando e diminuindo estes apoios (por exemplo, apoiar mãos e cotovelo,
depois somente mãos, e ia mudando); logo após nós nos locomovemos nestes
apoios. Depois, trabalhamos os níveis, há três desses: o baixo (deitado), o
médio (agachado) e o superior (em pé); e em cada um desses níveis íamos
colocando diversos apoios e nos locomovendo. A partir disso, começamos a nos
movimentar por rolamentos no plano baixo, e a projetar movimentos, que
consistia em seguir o movimento que o braço fazia.
Com as Ternas de enraizamento, desenvolvi mais
o meu equilíbrio através de exercícios como “raiz do pé”, onde se apóia o
metatarso do dedão, abrem-se os dedos e apóia o metatarso inteiro, transferindo
o peso para este pé. Houve outros exercícios que consistiam em aumentar a
percepção dos pés através de pisar em bolinhas de borracha e massagem. Logo
trabalhamos os saltos.
Para mim, que sempre
achei difícil equilibrar-me, estes exercícios me facilitaram, até que ao transferir
o peso para uma perna e expandir e retrair o corpo,notei o quão menos
complicado era, tornando isso uma experiência incrível.
Passando para as Ternas de sonoridade, treinamos
barulhos e ruídos através da expiração, como rugidos, fazendo “RRRRRRR” com
barulhos da língua e garganta; houve também um trabalho em conjunto, onde
tínhamos que imitar uma chuva com o barulho de pequenas batidas e toques no
próprio corpo, onde essa chuva deveria ter um início, um ápice e um fim, sem
comunicação entre os demais alunos, somente com o tempo, tornando uma boa
experiência coletiva.
Trabalhamos as Ternas de rosto que, em minha opinião,
é a que mais me diverti. Primeiro trabalhamos a musculatura facial, relaxando-a
e sensibilizando-a, depois tivemos o exercício de criar várias máscaras com o
rosto, alongando ou retraindo as musculaturas, como se pressionássemos ou puxássemos
o rosto, o que tornou algo bem interessante, pois além de criar diversos tipos
de feições, como de nojo, alegria, raiva, medo, tristeza; me diverti muito ao
ver os meus resultados e de outros colegas.
As penúltimas foram as Ternas de pele, a qual, junto com a de
rosto, achei a mais expressiva. Fazíamos diferentes tipos de estímulo em nossa
pele, como arranhões, toques, carinho, massagem; logo depois, foi nos instruído
a fazer movimentos e expressões, condizentes aos estímulos feitos. O que acabou
ligando as ternas, como as de rosto e as de alinhamento, mostrando que estava
tudo interligado, o que propiciou em uma boa experiência.
As últimas ternas
trabalhadas foram as Ternas de vísceras
e articulações. Iniciamos nos tocando para sensibilizar o abdômen, em
seguida, fizemos movimentos com os quais contraíssemos força neste, vendo as
mudanças que ocorriam, no entanto, não sei se por tempo ou proposital, houve
pouco trabalho com esta última terna, por isso, temo em dizer que não foi uma
experiência tão interessante quanto às outras.
Conclusão
Em geral, digo que, o
que antes parecia para mim algo somente para exercício, descobri que as Ternas
serviram muito para auxiliar e demonstrar minhas intenções e emoções. E por
mais que em momentos, como nas Ternas de Alinhamento, onde nos mostravam a
posição correta de sentar ou nos posicionar, não era obrigado a fazer e manter
da mesma maneira, mas sim ir até os nossos limites e ir buscando sempre
ampliá-los, a ponto de que em certo momento pudéssemos assumir a forma correta
de maneira fácil.
Em questão das emoções,
as Ternas de Pele foram as mais significativas, visto que nos exercícios
usávamos em conjunto as Ternas de Rosto e as Ternas de Alinhamento, tornando a
demonstração das emoções algo mais verdadeiro e genuíno. O que, inclusive, se
tornou algo bastante interessante para mim, pois como segundo Bolsanello (2005,
p.103):
Por
exemplo, no caso de pessoas de personalidade introvertida com tendências
anti-sociais e depressivas, a sensibilização da pele pode levá-los a uma relação
mais sadia com o “mundo exterior” através de uma (re) descoberta da
afetividade, da auto-estima, da sensualidade e da identidade, sem as quais a
vida torna-se monótona e insípida.
Em questão de intenção,
creio que as Ternas de Apoio e Projeções foram as que tornaram esta mais
perceptível, visto que em exercícios em que trabalhava o foco do nosso olhar ou
o lado para onde nosso braço está sustentado, e logo em seguida, caminhar em
direção a este, como se quisesse alcançar o local ou pegar alguma coisa, o que
acredito que seja essencial para o desenvolvimento do ator.
Desta forma, as Ternas
se tratam de notar, não somente a percepção de si mesmo, mas do que há em sua
volta; isto é representado através de Corpus,
que é divide-se em: Corpus Expressos (desenvolve a sensação da forma do
corpo do atuante por meio da contextualização de habilidades e limites),Corpus
Vistos (desenvolve a capacidade de mostrar diferentes poéticas do corpo em
movimento) e Eu Corpus (desenvolve a percepção de si por meio de
auto-conhecimento e auto-observação).
Assim, espero que possa
me manter descobrindo mais de mim através das ternas e com o tempo,
desenvolvendo-a e melhorando o que achava que já sabia sobre o corpo.
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