Desde pequeno sempre fui fascinado pelas artes, admiração esta que me levava aos processos criativos e ao desenvolvimento de algumas linguagens dentre as artes visuais. Lembro-me bem de começar com bonecos humanóides moldados com o barro do quintal de minha casa, assim como também me lembro da bronca de minha mãe vociferando para não sujar minhas roupas. Não se passou muito tempo e lá estava ela, gritando novamente por minha descoberta com giz de cera. Eram figuras de animais, bonecos de desenho animado, representações de meus familiares, todos rabiscados pelas paredes de minha casa. O desejo de representar figuras corpóreas sempre esteve presente em meus processos.
Mas o que é o corpo?
Com uma breve pesquisa de internet podemos obter a seguinte resposta: Corpo:
substancia material, orgânica ou inorgânica que ocupa determinado espaço. Ou
então podemos encontrar um significado mais biológico onde pode ser definido
como um organismo natural, um conjunto de órgãos que permite as funções
necessárias à vida. Pronto! Está criado para mim o senso comum da definição de
corpo limitando-me por anos a representar apenas esse amontoado de músculos,
ossos e órgãos sem experimentar e ter conhecimento de toda sua potência e
extensão.
Com toda vivencia
permeando o universo das artes eis que agora me deparo com teatro. Por tempos
eu criava a obra e a posicionava sobre o holofote para a apreciação do público.
No entanto, agora o holofote está sobre mim, eu sou a obra e estou apavorado
com o público a minha frente.
Referindo-me como obra
e experimentando esse processo de iniciação no teatro descubro minha maior
ferramenta dentro do palco: Meu corpo e minha voz. Agora eu sou o protagonista,
meu corpo deve ser desconstruído, reconstruído e novamente desconstruído para
estar preparado para as situações em frente à platéia. Tarefa essa nada fácil.
Nessa experiência de
desconstrução comecei com a percepção de como meu corpo se relacionava com
atividades cotidianas. As aulas ministradas com auxilio das ternas me davam
base para uma maior percepção e consciência corporal. Simples ações e
movimentos cotidianos como pegar um objeto, caminhar ou subir uma escada reverberavam
em meu corpo relembrando sequências de exercícios e emoções já vivenciadas em aula.
Antes meu corpo em estado de inércia tanto pelo sedentarismo e falta de
preparo, agora estava começando a criar uma forma mais expressiva, altiva e se
comunicando não unicamente através da fala, mas em conjunto com cada músculo,
órgão e osso que me era permitido.
O processo foi
doloroso, não apenas pelos encurtamentos e limites corporais, mas também pelo
modo como a sociedade já havia me moldado. Os limites físicos existem porem
dentro do processo eram mais fáceis do que os psicológicos e emocionais. Eu,
sendo homossexual, nascido em uma família conservadora fui condicionado e ter
uma postura retraída. Limitava-me ao mínimo de movimento possível, sem
movimentos expansivos e expressivos para não chamar atenção e sofrer
preconceito dentro de meu âmbito familiar e social.
Dentro de meu primeiro
contato com as ternas de alinhamento e braço percebi um grande conflito entre
manter uma postura contida e sem grande expressividade e a necessidade pessoal
de expurgar movimentos sutis e delicados focados no tônus baixo. No processo da aula encontrei meu ponto de
equilíbrio e consegui me impor, estava de cabeça erguida olhando todos a minha volta e experimentando
movimentos de tônus leve e brando que emanavam desde meu tórax passando pela
escapulas, braço, punho e falanges. Senti-me livre como a brisa, deixando meus
músculos exteriorizar todos esses anos de amarras.
Com essa imersão em meu
próprio físico, psicológico e emocional o que era apenas uma aula de corpo me
trouxe reflexões de minha personalidade.
A postura retraída foi se esvaindo e sendo tomada por uma forma mais
presente, com atitude e certeza ao caminhar. Estava enraizado com plena certeza
do que estava me tornando, as articulações de meus pés agora me mantinham
fortes para enfrentar minhas lutas e me davam propulsão para não desistir. Mesmo
quando algo me abalava encontrava forças no amortecimento de meus joelhos para
conseguir a cada passo conquistar meus objetivos dentro das artes cênicas.
Já não era o mesmo, a
cada semana era um novo desafio me encontrar dentro dos movimentos propostos em
ternas, projetando-me para alcançar êxito em todas as aulas. Com movimentos
interligados de joelho, quadril e tórax o meu braço ganhava uma propulsão nunca
antes imaginada. Ganhava qualidade de movimentos rápidos e com grande amplitude
preenchendo o espaço a minha volta. Mesmo tentando manter a concentração e o
foco nos movimentos as vezes o desequilíbrio vinha e nessas horas concentrava-me
nos apoios e aproveitava a desaceleração do corpo para explorar o plano alto. No
plano médio propunha movimentos retraídos dentro de minha kinesfera resultando
em mais contatos e apoio no chão mantendo-me assim em equilíbrio. Já em plano
baixo lançava-me com projeções de braços e pernas que resultavam em rolamentos contra
o solo.
Em contato com o chão
durante o rolamento sentia sua textura e temperatura. Minha pele agora estava
também sensível a percepções antes não imaginadas, meus braços e pernas quentes
e suados em contato com o solo frio me causavam grande estranheza. Estava
sentindo cada centímetro de meu corpo entrando em contato com o solo frio e
como saída para ficar de pé encontrei na projeção de minha perna o movimento
necessário para dar uma cambalhota em meu próprio eixo e me encontrar novamente
em plano médio e em seguida alto. No entanto a sensação permaneceu, senti todos
a minha volta através de minha pele. O movimento e caminhar dos outros alunos
produziam rajadas de vento que mesmo quando estava de olhos fechados era fácil
a percepção de que algo estava próximo de mim.
Com a expressividade do
corpo foi-se criando também a expressividade no rosto. Tomei conhecimento de
minha própria mascara social. Durante anos franzi minha própria testa para
tentar aumentar meus olhos e demonstrar estado de atenção e com esse franzir de
testa e levantar de sobrancelhas vinha também o levantar de minhas bochechas
fazendo assim um leve sorriso de canto de boca em minha face. As ternas mais
uma vez estavam revelando traços antes não pensados sobre minha personalidade,
na qual tento sempre demonstrar estar focado com o olhar e receptivo com o
sorriso.
Dentre todos estes
trabalhos com o corpo agora apenas faltava o trabalho vocal no qual as ternas
também se mostraram presentes. Sensibilização de escuta através de sons de
vogais e sons de animais fizeram presentes dentro das aulas para uma melhor
percepção de minha voz. Utilizando de entonação, pausas e tonalidades foram
perceptíveis expressar de varias formas apenas uma frase.
Ternas para mim foi bem
mais do que uma didática corporal. Com o seu auxilio consegui me preparar,
sensibilizar e conhecer meu corpo. Através do processo também fui me aprofundando
e percebendo questões emocionais e sociais que estavam intrínsecas em meu
físico. Com a percepção e preparação mutua tanto do físico como emocional
consegui uma maior expressividade e experiência do movimento pessoal e
criativo. Com os exercícios crio sempre uma memória tornando de fácil acesso a
execução de movimentos livres e com alto teor expressivo, atingindo assim um de
meus objetivos dentro do semestre.

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