O meu primeiro período do curso de licenciatura
Teatral começou com a aula da professora Renata Meira, logo depois de uma
semana incrível de recepção com os veteranos. Eu observava aquelas pessoas com
boas posturas, projeções de voz, tônus e todas as qualidades que eu almejava
conseguir e fiquei pensando se elas levavam tudo aquilo para o dia a dia também...
aquela presença e energia incrível e como eu faria para atingir tal nível.
Recebi, juntamente com os meus colegas de
classe, um convite da professora para fazer parte da pesquisa das Ternas. Aceitei
de pronto sem saber o que me esperava nos próximos encontros com ela. Ao longo
das aulas, pudemos ver na teoria e principalmente na pratica, do que se tratava
as tais Ternas.
Começamos com as Ternas de braços e hoje, ao
final do semestre, consigo ver o quanto foi importante começar por eles. Os braços
conseguem ser uma fonte de equilíbrio, fluidez e ainda é capaz de fazer inúmeros
movimentos, suportar pesos e pressões.
Nas Ternas de Apoios e Projeções, pude
trabalhar a força dos meus membros e sair de poses habituais. Se mover pelo chão
passou a não depender apenas das pernas e pés. Nos deslocamos pela sala inúmeras
vezes como lagartos (com quatro apoios, sendo eles pés e mãos), por exemplo, e
nos sustentamos em diferentes níveis em dois apoios (como o quadril e uma mão),
ou três (como duas mãos e um joelho...). Tive algumas dificuldades nas projeções
quando ela tinha que vir acompanhada de mudança de nível, como ficar em pé
apenas com o impulso dos braços e tórax estando sentado.
Já com a Terna de Alinhamento, pude começar a caminhada
para alcançar as posturas dos colegas que eu tanto admirei. Achar meu eixo foi importantíssimo
para conseguir me sustentar de forma ereta e não dolorosa. É instigante pensar,
notar e vivenciar o quanto uma atividade simples é feita de forma ‘’errada’’
pela maioria das pessoas por inúmeros motivos e particularidades. A partir
dessa Terna, presto muito mais atenção em como paro, ando e me sento. As dores
na coluna e as tensões em meus ombros diminuíram muito e acredito fielmente que
isso está ligado aos meus novos costumes adquiridos através das aulas.
Ainda no assunto ‘’novos costumes’’, o meu
andar também mudou drasticamente após conhecer as Ternas de Enraizamento. Reaprender
uma ação simples e corriqueira me causou vários questionamentos. Por que pisar com
as laterais dos pés? Por que arqueá-los? Vi que cada sugestão da professora
ajudou a melhorar o equilíbrio e a achar a resposta de porquê meus sapatos
sempre desgastavam mais de um lado do que do outro e também de eu viver tropeçando:
meus pés tocavam o chão de forma errada.
A Terna de Rosto rendeu boas risadas com a
turma e também nos fez perceber a expressão que carregamos todos os dias, quando
refeita pelo colega. Muitas vezes não prestamos atenção em como ‘’soamos’’ para
o mundo e foi engraçado, ao mesmo tempo que assustador, a forma como meu rosto é
visto. Trabalhamos também, a nossa musculatura facial, tocando, esticando...
cada área dele. Em frente aos espelhos, fizemos caretas e descobrimos expressões
incríveis que nossos traços conseguem formar.
Falando em toques, assim como tocamos nossos
rostos na Terna anterior, repetimos essa tarefa, acrescentando o toque ao resto
do corpo e mais superficialmente, na Terna Pele. Por sua vez, esse estudo foi
um dos que mais me causou emoções. Trabalhar o sentir do maior órgão do corpo,
que em situações comuns é ignorado, foi sensacional. Carregar a máscara facial nessa
Terna também foi de muito valor. Cada reação pedia uma máscara de expressão diferente
e experenciar varias delas para escolher a que mais combinava com o que queríamos
passar acrescentou muito para o tônus da turma.
Ainda sobre toques e sentir, trabalhamos com
nossas vísceras. Apalpando nossas costas e abdômen, pudemos dar atenção ao que
está dentro da gente e só recebe tal ‘’carinho’’ quando há algum tipo de dor.
Entre todas as Ternas já citadas, as Articulações
estão presentes e todas elas, desde a dos Braços, até a de Enraizamento. As usamos
ao nos movermos e também precisamos trabalha-las para conseguir a tal fluidez
que é indispensável para um ator. Em uma aula, professora nos sugeriu mexer uma
articulação, depois duas, depois três, até chegarmos em oito delas e então,
percebemos que em algumas escolhas, já nas primeiras articulações que ganharam atenção,
também estávamos usando outras. Foi interessante notar a ligação delas. Ver e
estudar a anatomia através de imagem de cada articulação ajudou muito no entendimento
das mesmas.
Por último a Ternas de Sonoridades, Voz e Fala me
intrigou. A voz não teria que estar presente nas três? Por que separar voz de
fala? Ambas não seriam sonoridades? E então, prática, vi que não! Trabalhamos as
sonoridades através de toques no corpo recriando o barulho de uma chuva e também
ao expelir algum som no meio de um exercício ou fisicalização. A voz estava sim
presente nesses dois e a fala também é uma sonoridade. Entre fala e voz testamos
tons lendo uma frase escrita no quadro negro pelo Tulio, companheiro da professora
Renata.
Ao longo do período, então, voltando ao primeiro
parágrafo dessa reflexão de meses, achei o significado da palavra tônus que,
naquela primeira semana de recepção eu não a escolhi para caracterizar os colegas.
Consegui, com as aulas, trabalhar meu corpo para aperfeiçoar o meu próprio tônus
e também para conseguir a consciência de que cada personagem e cada circunstância
exige um tônus diferente e me deu a capacidade de saber por onde começar o
estudo sobre o que eu quero mostrar.
Conclui que todas as Ternas estão ligadas entre
si e que sim, é possível que meus veteranos e eu leve toda aquela postura para
o dia a dia. Nossas manias e vivencias culturais nos levam a agir inconscientemente
com nossos corpos. Para diminuir as consequências da relação ‘’vazia’’ que temos
com ele, tivemos que sentir, perceber e reaprender ações simples através
da educação somática, como citado no artigo A
Educação Somática e os Conceitos de Descondicionamento Gestual,
Autenticidade Somática e Tecnologia Interna (BOLSANELLO, 2011), de Débora Pereira Bolsanello. Dentre
todas elas, as dificuldades foram superadas e o processo que tendia a ser
doloroso acabou sendo terapêutico. As Ternas e a educação somática me deram a
chance de saber por onde começar a investigação para solucionar obstáculos e e
testar meus limites. Foi, sem dúvidas, uma forma perfeita e que agrega muito,
de começar o curso e de melhorar nossa saúde corporal também fora da sala.
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