É engraçado como não nos conhecemos né? Particularmente sempre me vi como uma pessoa que tinha um amplo entendimento do meu corpo e das minhas necessidades, mas tinha?
Com o estudo das ternas, pude perceber que nada do que eu sabia realmente era daquela forma. Desde a primeira aula, quando demos introdução aos estudos das ternas (iniciado pela Terna Braços), descobri que os braços pesam!
Trabalhando com o peso dos braços em relação a gravidade, pude ter essa percepção. Nela, consegui sentir a forma em que as minhas escápulas se tensionavam e meus ombros tremiam conforme ficavam mais enrijecidos. Nunca tive facilidade para sustentação, independente da parte do meu corpo. Por isso, essa foi a minha maior dificuldade, por que dificilmente, na correria do dia a dia, ouço as necessidades dele. Como me alongar por exemplo, que com os estudos das ternas, percebi que esse ato distensiona os meus músculos e me deixa mais leve e relaxado. Em especial, a Terna Braços e Terna Alinhamento trouxe para mim uma atenção mais reforçada aos meus membros superiores, por ser um dos meus maiores pontos de exaustão diária, e a postura, que pelo fato de usá-los constantemente para tocar guitarra, acabo sentindo muitas dores.
Em média, uma guitarra pesa de três a quatro quilos, peso esse que é sustentado apenas por uma faixa de apoio que circula os ombros e o tórax quando um músico toca em pé. E é claro que como estudante eu não poderia fazer diferente. Sempre que treino exercícios de escalas procuro ter uma postura que terei em palco, para me adaptar e ter uma melhor desenvoltura nos meus shows. Porém, esse peso me causa bastante incomodo conforme vou treinando e o tempo vai passando. E com os exercícios de sustentar o peso, abraçar as escápulas, alinhar a coluna, dando atenção aos meus movimentos, entendendo a relação da crista ilíaca com a cabeça (o olhar) alinhando o sacro, os ísquios, parte a parte, como se fossem um brinquedo de lego, que mesmo diferentes se encaixam e se alinham como devem ser, e claro, descobrindo que esses membros necessitam de atenção diária, com o decorrer do semestre, consegui ter uma melhor performance em palco, não chegar à exaustão após os shows, e muito menos sentir as fortes dores de colunas que suportei durante um bom tempo.
Outra questão que para mim a Terna Braços foi muito útil, foram em relação a minha forma de fazer acordes enquanto toco. Além da postura, meu apoio na escala do instrumento causava uma enorme tenção nos meus punhos e dedos, chegando até a perder os movimentos por um tempo após tocar por um longo período. E nesse processo, consegui criar uma relação de apoio da mão com o braço da guitarra, posicionando meu cotovelo a noventa graus, enraizando os pés no chão e mantendo o alinhamento da coluna para que tivesse uma sustentação, e criasse uma relação de apoio, onde o instrumento fizesse parte do meu corpo, e deixasse de ser um objeto externo que eu teria que lidar com os malefícios causados pelo mesmo daqui a alguns anos.
Posso dizer que as minhas dificuldades em sustentação estão sendo superadas gradativamente, porém, a Terna Braços e Alinhamento junto com a percepção do Eu Corpus, que é exatamente o desenvolvimento dessa percepção do próprio corpo, de buscar esse autoconhecimento através de manipulações e movimentos com uma atenção maior a cada gesto, utilizar objetos (como a guitarra por exemplo) que é algo do meu dia a dia para estimular as sensações desse processo e encontrar uma forma de me entender, fez-me ter uma relação mais orgânica com o meu instrumento, tornando assim, meus estudos e apresentações mais proveitosos e divertidos do que já são.
Nesse período, consegui perceber como a obviedade é reveladora, por pensar que tinha controle por todas as partes do meu corpo, quando na verdade, cada membro tem um movimento próprio, uma sensação diferente e características que juntos constroem quem eu sou. Entretanto. reconheço que sem esse processo de autoconhecimento, eu não teria notado.
Passar por essa reconstrução e reconhecimento em coletivo me trouxe várias questões, como: "Até aonde posso ir com o meu corpo? Eu realmente me conheço?" E não demorou muito para que as respostas fossem surgindo juntamente com observações que eu nunca tinha feito, como na Ternas de Enraizamento, que me fez perceber o quão desequilibrado eu sou, e como desmereço meus pés.
Os pés são os membros que mais sustentam o meu peso no dia a dia, e eu nem os agradeço por trabalharem tanto.
Confesso que mesmo achando que eu tinha esse “amplo entendimento do meu corpo”, minha vida é cheia de dores por falta de cuidados e vícios que ainda tenho que desconstruir, e em relação a Ternas de Enraizamento, existe um em específico que me policio com esforço desde o dia em que tive contato com a mesma.
É perceptível que tenho uma postura um tanto quanto desleixada, e que ignorar esse desleixo traz malefícios, porém, o ato de torcer meu pé direito para a direita, o esquerdo para a esquerda, e apoiar o peso do meu corpo todo neles, fez com que ao caminhar normalmente durante o dia a dia, eu sentir muita dor na parte superior dos meus pés, onde encontram-se os ossos cuneiformes laterais. Dor essa, que me fez também ter um posicionamento irregular em relação aos pés no chão, que amplificam as dores em trajetos maiores que percorro a pé.
O fato é que com o primeiro exercício proposto pela docente Renata Meira, de pisar em uma bolinha, e passa-la pela parte inferior do pé, consegui sentir uma maior leveza ao caminhar. A forma de reconhecer a fisionomia dos mesmos também, massageando levemente para cima e para baixo, passando por cada articulação, foi como um pedido de desculpas por ter sido tão displicente com eles durante todo esse tempo.
De bônus, reaprendi a posicioná-los. Porque o ato de torce-los e “despejar” meu peso sobre ambos, se tornou um vício. E estando em processo de abandono desse vício, aprendi uma base para seguir sempre que percebo estar agindo de forma prejudicial com os meus queridos amigos pés, que é encontrar o arco do pé. Antes de encostar o pé no chão, simplesmente abro os dedos, apoio o metatarso seguido por toda a parte inferior, inserindo o calcanhar e fazendo uma pequena torção no maléolo, um pé por vez, para que assim, eu possa retornar a caminhada com atenção e respeito aos lindos membros que me suportam todos os dias.
Obviamente não posso esquecer que a composição dos joelhos semi-flexionados, a região dos ilíacos, alinhando o púbis e o sacro com a coluna e a cabeça, juntamente com os pés, formam um corpo preparado para jogo, e deixa o ator com o Tonos necessário para qualquer atividade.
A terna de Apoios e Projeções me trouxe um enorme relaxamento, pelo fato de colocarmos bolinhas por pontos da minha posterior. No início, senti um pequeno incomodo nas regiões mais tensionadas, como na base do tórax, tensões essas causadas pelo contínuo uso da guitarra como citei acima. E para mim, a forma em que as bolinhas postas nesse local podem ser somadas com a respiração para a abertura do diafragma foi muito útil para o desenvolvimento de apoio vocal, na música, em especial cantores e instrumentistas de sopro, o apoio vocal é o maior foco de desenvolvimento e aprendizado, exatamente para ampliar a capacidade de alcance e sustentação das notas. Após esse alongamento e relaxamento do corpo, iniciamos o que pra mim foi um tanto complicado, a busca de diferentes apoios no chão.
Minha criatividade e percepção das possibilidades foram baixas em elação a essa pesquisa. Quatro, dois e três apoios feitos de uma forma simples e feitas uma única vez não são tão difíceis assim. Porém, quando se pensa em como se sustentar em dois apoios quando não são de joelhos ou em pé, no calor do momento é difícil pensar em várias possibilidades, entretanto, hoje, consigo ver mais posições possíveis que eu poderia ter usado no processo, como por exemplo: um pé e um cotovelo ou um pé e uma mão.
Dando continuidade, a Terna Pele foi pra mim uma sensibilização do meu eu muito forte, porque pude sentir variações de sensações. Em como eu me sentia bem me acariciando, mas como era agonizante me arranhar, e levantar questões também, como: “Porquê quando pressiono esse local, logo após o toque sinto um formigamento?” Ou “Porquê tenho cócegas nas mãos?” peculiaridades do meu corpo que não são expostas sem contato, que eu não descobriria sem encostar, sentir e analisar. E em especial, descobri um ponto onde sinto extrema agonia ao toque. Na região onde ficam as minhas costelas flutuantes, quando pressionei, senti um choque dos pés à cabeça que para mim, ainda não está claro o motivo, mas é claro que não quero sentir novamente. Porém, simplesmente tenho, e isso que é impressionante! Os corpos se diferenciam, e parar para pensar que essa minha sensação de repugna nessa região pode acontecer só comigo é incrível.
Mas essa sensibilização, traz à tona como não nos conhecemos, como não nos tocamos e não sabemos muitas das vezes pontos de prazer ou agonia como esse, que estão ali conosco o tempo todo.
A Terna Rosto é algo em que quero me aprofundar um pouco mais, as variações de faces possíveis para criações de personagens ampliam o “background” de um ator. E assim como na Terna Pele, são necessários uma sensibilização e um mapeamento do rosto, para sentir e ter maior sustentação da máscara que estou usando. O que para mim é uma das minhas maiores necessidades de desenvolvimento. Encontrar uma face para um personagem que dialogue com a personalidade do mesmo, e sustentá-la do início ao fim do espetáculo, são técnicas que é necessário estudo e obviamente, prática com os mesmos, desde a sensibilização, para sentir e saber o que estou fazendo, até a sustentação que (novamente) não é a minha maior qualidade.
A Terna Vísceras também trabalhou com a questão da sensibilização, porém, de uma forma interna, sentindo os órgãos com as mãos, apalpando e ouvindo os sons que eles fazem em relação com a respiração, ampliando as percepções de movimentos e sons, o que pra mim, foi engraçado e agoniante devido ao ponto de “choque” que descobri, mas foi engraçado porque sons do corpo muitas das vezes são um tabu. Gazes ou ruídos emitidos involuntariamente é uma questão de constrangimento, porém, nada além dessa percepção me foi tocado, ainda.
Fui capaz de perceber com as ternas que elas trabalham todas as partes do corpo, do interno ao externo, com o intuito da conscientização e criação a partir desse autoconhecimento. E através desses, pondo em prática os três Corpus necessários para a criação.
O Corpus Expressos, que é a capacidade do indivíduo entender seus limites e barreiras, para ir além do que se espera, desenvolvendo assim sua capacidade de se expressar melhor com o corpo, desenvolver a coordenação motora e permitir transmitir emoções através de um gesto ou ação.
O Eu Corpus, que como disse no início do texto, é o ato de pesquisar, conhecer e entender melhor o seu corpo. Saber seus limites e o que pode ser melhorado com o tempo, mas que nos traz a compreensão de quem nós somos.
E por fim, mas não menos importante, o Corpus Vistos, que é a relação de composição através intenções, improvisações, relações com o coletivo, ambiente, gestos, músicas, coreografias, ou até mesmo através de uma dramaturgia.
Por fim, posso dizer que os estudos das ternas somaram muito na compreensão do meu eu e no desenvolvimento do meu corpo, por saber que hoje, tenho limitações, mas também tenho pontos a serem estudados e melhorados com o tempo, e que a criação e construção de personagens podem vir a partir desses estudos, mas que cabe a mim entender o que meu corpo é capaz de fazer e sustentar para não me causarem lesões e obviamente ter um leque de informações e possibilidades para desenvolver qualquer papel. Até mesmo a mim no dia a dia.
Referências:
TERNA ALINHAMENTO. Disponível em: https://ternascorpovoz12019.blogspot.com/2019/04/terna-alinhamento.html. Acesso em: 5 de julho de 2019.
TERNA APOIOS E PROJEÇÕES. Disponível em: https://ternascorpovoz12019.blogspot.com/2019/04/terna-apoios-e-projecoes.html. Acesso em: 5 de julho de 2019.
TERNA BRAÇOS. Disponível em: https://ternascorpovoz12019.blogspot.com/2019/06/terna-bracos.html. Acesso em: 5 de julho de 2019.
TERNA ENRAIZAMENTO. Disponível em: https://ternascorpovoz12019.blogspot.com/2019/05/terna-enraizamento.html. Acesso em: 5 de julho de 2019.
TERNA PELE. Disponível em: https://ternascorpovoz12019.blogspot.com/2019/06/terna-pele.html. Acesso em: 5 de julho de 2019.
TERNA ROSTO. Disponível em: https://ternascorpovoz12019.blogspot.com/2019/06/terna-rosto.html. Acesso em: 5 de julho de 2019.

Incrível!!
ResponderExcluirParabéns João, por ler o trabalho do colega. É um ótimo exercício.
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