A menina que descobriu as Ternas

(Ilustração de pngtree)

Em uma bela cidade do interior, havia uma menina muito responsável e focada em seus sonhos. Ela fez aulas de etiqueta, de como andar de salto alto e também de como equilibrar livros na cabeça, foi ensinada com inúmeros processos e ao final de cada um deles sempre um aprendizado novo. Aquela menina cresceu trabalhando como modelo e ouvindo de todos a sua volta “olha essa postura”, “endireita essa coluna, vai sentir dor nas costas”, até que então começou a adquirir um vocabulário gestual limitado, pois tudo o que seu corpo conhecia era o ser alinhado.


Essa menina cresceu com a coluna perfeita, mas com os ombros muito tensos, já que uma maneira mais fácil de estar alinhada é colocar suas tensões em outros lugares do corpo. Os anos se passaram e ela entrou na faculdade de teatro, pois viu que a indústria da moda não iria satisfazer suas vontades, visto que não se importavam com o seu interior e não queriam saber quem ela era ou poderia ser. Ela queria ser atriz, ser ouvida, interpretada e também interpretar, queria se permitir ser ampliada e desdobrada, até que então começou a frequentar as aulas de corpo, e foi nesse momento que essa menina percebeu que algo estava errado, como se ele estivesse viciado em movimentos que ela e os padrões do dia a dia o submeteram. A partir daqui, vou narrar como foi o processo de desconstrução e consciência corporal dessa garota, utilizado uma pedagogia corporal chamada; Ternas.

Tudo começou com a Terna braço. A menina pode enxergar com muita propriedade os seus ossos e articulações, desde a escápula até a ponta dos dedos. Ela nem podia imaginar que seu braço poderia ser tão independente do corpo e comandar inúmeros movimentos dele, já que nunca tinha olhado para a complexidade do simples ato que é deixar com que o braço se movimente. Então ela se lembrou de um artigo que leu sobre educação somática, onde a autora Débora Pereira Bolsanello diz que quando fazemos o movimento com mais calma, conseguimos realmente nos concentrar na forma como ele é realizado e adquirimos mais consciência corporal. Para a garota, chegar a essa conclusão na primeira terna foi de muita importância, já que agora ela sabia a fórmula para ser aplicada nas outras ternas.

Logo, apareceu a Terna Alinhamento, e a garota passou a buscar maneiras de sair da sua zona de conforto nesse alinhar. Como por exemplo, fazendo torções entre cintura escapular e cintura pélvica, deixando o comando do movimento para o estímulo que essa torção a proporcionava, o que causou muito estranhamento. A menina passou a realizar movimentos que eram totalmente fora do seu habitual e assim percebeu que havia inúmeras formas de alinhar e desalinhar, que havia outras formas de andar com esse alinhamento, mas trocando as áreas de tensão e também que ela era capaz de conhecer o seu corpo para que ele não se sentisse incomodado com essas mudanças. Nesse momento aconteceu um conceito chamado descondicionamento gestual, que para Bolsanello em seu artigo publicado em 2011, é o refinamento dessa desconstrução do habitual e a adaptação do corpo com novas possibilidades.

Em seguida, foi apresentada a menina uma Terna chamada apoios e projeções. Essa terna lhe causou uma confusão enorme, visto que não era comum que fizesse algum movimento com a atenção voltada ao lugar que seu corpo tocava o chão. Era como se ela pudesse navegar em vários planos do espaço e conseguisse se expressar ampliadamente ou encolhida, pois ela tinha a liberdade de escolher como iria utilizar e experimentar dessa terna. A garota escolheu passar por apoios no chão em sequência de rolamentos, a sua percepção do rolar e levantar se tornou mais sensitiva, como se ela pudesse cair sem se machucar e se manter apoiada da forma mais improvável possível, já que o improvável para ela era o que nunca havia sido experimentado.

Falando sobre o improvável, a Terna Enraizamento chegou. Sua chegada foi um abraço bem apertado do coração da menina, já que seu processo até aqui tinha sido de muito esforço, desconstrução e nada fácil. Isso mudou com a terna de enraizamento, porque o ato de conseguir ter um contato com o chão tão profundo, e uma consciência de como o seu pé deve se posicionar para se projetar o que quiser, mantendo o equilíbrio,  a deixava muito encantada. Esse enraizamento a fez alcançar mundos imaginários incríveis, visto que ela poderia ser um avião no céu, fazendo um arco com o pé e depositando a força linearmente para o joelho, levantando um dos pés e abrindo os dois braços, que mais tarde seriam asas desse avião, ou também ela poderia ser um astronauta, brincando com o processo do andamento em outra gravidade e experimentando o ato de desequilibrar e se equilibrar novamente.

A garota pode chegar à conclusão de que o processo com as ternas eram como um processo de view points, pois quando relacionou com a aula de atuação e improvisação, esse mecanismo era de construção e criação, porém, ela tinha a opção de escolher como iria utilizar desse mecanismo, tinha liberdade para experimentar dentro de velocidade, andamento, arquitetura, saltos e muitas outras opções, as ternas tinham seu formato já pronto, mas a liberdade de escolha na hora da experimentação sempre existia. Assim, a menina pode refletir que as ternas eram uma pedagogia corporal que visava à consciência corporal, porém, elas também poderiam ser base para uma composição.

Para a menina, o conceito de consciência corporal olhava para o corpo como se o rosto não fizesse parte dele, pois era com tanta freqüência trabalhado um corpo individual, que ela até esquecia que o rosto também fazia parte de seu corpo. Essa idéia foi reformulada quando a Terna Rosto chegou. Ela começou a experimentar as máscaras que podiam afinar, enquadrar, tirar a simetria e retornar a ela. Mas percebeu que “fazer caretas” não era o intuito daquela proposta, e sim olhar para as máscaras como expressões de um corpo que esta sendo visto pelo mundo, e como sempre, desconstruir o que para ela era mais prático e habitual fazer, como por exemplo, sair do sorriso simpático e franzir mais a testa, dando uma expressão mais séria ou brava. Foi uma tarefa bem difícil para ela, mas com um resultado prazeroso, visto que todas as vezes que olha para alguém na rua, tenta guardar ao máximo a máscara dessa pessoa, para tentar reproduzir depois, e isso faz com que o repertório dessa garota cresça grandemente.

A Terna Rosto chegou para desconstruir a idéia de que o rosto não fazia parte do corpo, e a Terna Pele também. A menina nunca tinha parado para pensar que a pele era também parte de uma consciência corporal, já que ela é o maior órgão do corpo humano. Porém, conhecer esse órgão foi um tanto quanto desconfortável para ela, pois os exercícios de cutucar e arranhar a causavam uma sensação de tensão, por outro lado, os que eram de sentir a pele através das roupas, do vento feito pelos movimentos e pela massagem, a deixavam seguras, com um sentimento de pertencimento e liberdade.

A hora de olhar para a voz e os sons chegou com a Terna Sonoridades, e a garota sentiu muitas dúvidas em relação a experimentação dessa terna. Foi muito interessante para ela, pois percebeu que quando voltamos à atenção para o nosso corpo, não se pode esquecer os pequenos detalhes que o envolvem e o compõe. Assim, ela viu que os sons que seu corpo produzia eram colocados em sua cinesfera e em composição com os outros poderia se criar uma orquestra inteira. O exercício de reproduzir sons de chuva foi sem dúvida o mais marcante para ela, já que pode entrar em contato com os possíveis sons de seu corpo, junto com os sons criados pelos outros corpos e assim, desenhar o som de uma chuva, do começo ao final dela.

A Terna que encerrou esse processo de conhecimento corporal se chamava vísceras e articulações.  A menina teve tempo para voltar sua atenção para seus órgãos, massageá-los, ouvir o funcionamento deles e principalmente localizá-los. Foi um processo bem relaxante e de grande autoconhecimento, já que nunca tinha feito esse tipo de exercício antes. As articulações também foram trabalhadas de uma forma bem consciente, e a garota pode perceber como era importante o cuidado com as mesmas, já que são extremamente sensíveis, apesar de facilitarem os movimentos do corpo. Porém, achou que essa última terna poderia ter ser trabalhada de outra forma, talvez com mais calma, na qual deixasse mais claro para os alunos/atores a importância desse conhecimento e o porquê dele para a vida de um ator em formação. Ela procurou entender e hoje não tem mais dúvidas, porém se sentiu perdida durante muitos momentos da aula, e achou que a mesma foi passada de uma forma muito rápida, não tendo tanto aproveitamento em relação às outras ternas.

O estudo das ternas foi uma grande viagem para um mundo necessário. Hoje, quando a garota fala dela mesma na terceira pessoa, consegue enxergar que todo o esforço colocado na desconstrução e na construção de um corpo, foi mais do que importante para sua carreira artística. Hoje, ela não sente dificuldades em corrigir vícios e de experimentar novos, ela reconhece seus limites e encurtamentos como um motivo para continuar trabalhando pelo seu corpo, já que esses detalhes o fazem único. Ela se sente em um novo templo, livre para acreditar que é capaz de conquistar as mudanças que quiser e necessitar. Por último, ela é grata as ternas.

























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