Terna Rosto
prática Corpus Expressus
20 de maio de 2019
A atividade física sempre esteve presente na minha vida. Eu sempre fui estimulada a me movimentar e a explorar meu corpo, de forma que eu me conhecesse e pudesse me sentir confortável na minha própria pele. O que nós, pessoas, nos esquecemos, é que cada corpo é um corpo, somos todos diferentes, que e que justamente essa diferença deve ser estudada e desenvolvida.
Quando eu era mais nova e fazia aulas de dança, me colocava em um lugar de autocrítica extrema. A esmagadora maioria dos meus colegas tinha uma maior facilidade em se alongar e em realizar exercícios com a perna direita, e eu, com a esquerda. Uma coisa tão pequena, certo? Bom, para mim não. Aquela sutil diferença entre mim e o resto da turma fazia com que eu forçasse muito além da minha capacidade, em níveis maiores e mais perigosos, para poder me encaixar nas coreografias montadas, que claramente, favoreciam a maioria do grupo.
Essa memória veio até mim quando eu estava pensando no que as ternas mudaram no meu corpo, e na minha vida, no meu conhecimento e reconhecimento de mim mesma. Primeiramente, aquele antigo e prejudicial pensamento sobre “seguir o padrão”, com o tempo, já não fazia mais parte de mim. Passei a pensar, simplesmente, que ao invés de exigir de mim mesma um esforço exagerado e danoso, eu poderia começar trabalhando com o básico, ou seja, meu próprio corpo do jeito que ele é.
O processo é lento, e, sinceramente, quando se iniciauma metodologia que é desconhecida, é difícil acreditar na eficácia da mesma. E foi justamente neste quesito que as ternas me surpreenderam. Braços, alinhamento, apoios e projeções, e, por fim, enraizamento, foram as quatro ternas trabalhadas neste semestre revelador. Eu digo “revelador”, pois nunca imaginei que meus braços tinham tantos ossos, e que eu possuía o controle de todos eles. Aí está a mágica no uso desse sistema, você descobre coisas incríveis que estiveram ali o tempo todo e tudo o que se pode fazer com elas, e antes elas eram apenas desconhecidas.
O que mais me intriga nas ternas, é algo que está em todo novo conhecimento: para aprender, você deve desaprender. Comecei a perceber em mim mesma uma série de “manias” que se internalizaram e agora fazem parte do meu ser, inclusive na minha maneira de andar, algo simples, que aprendemos logo no início da vida. Para poder mergulhar de fato nesse método, deve-se realizar uma entrega consciente do corpo ao processo, fazendo com que nos desprendamos de nossas amarras sociais, que muitas vezes (eu arrisco dizer que, na maioria), nos impedem de explorar nosso próprio corpo, de descobrir o que ele é capaz de fazer.
Muitas pessoas me perguntam, e sei que aos meus colegas também: “o que vocês fazem nas aulas de teatro?”. São muitas respostas, porque, de fato, fazemos muitas coisas. Mas, para mim, o que este curso e essa disciplina, em especial, através das ternas, me proporcionam de melhor, é poder desenvolver a capacidade de me conhecer cada dia mais, e aumentar minha habilidade de expressão, e não digo somente enquanto atriz, mas sim, como mulher, exercendo meu papel de importância na sociedade.
Ter momentos do seu dia dedicados exclusivamente a cuidar do seu corpo é um privilégio. Cansativo, difícil, como qualquer processo, mas incalculavelmente satisfatório. Na correria do nosso cotidiano, se não estamos envolvidos em alguma profissão relacionada ao corpo, dificilmente nos lembramos que devemos cuidar dele para que o resto possa seguir bem, afinal, corpo são, mente sã. Todos deveríamos, realmente, tratar nosso corpo como nosso templo sagrado, até porque é ele que nos carrega até o final da nossa jornada.
Para finalizar, vou ressaltar a parte que mais me agrada em toda essa pedagogia das ternas: o aumento de repertório para criação e representação. É incrível descobrir que com a força de uma terna de enraizamento, podemos desenvolver personagens que carregam uma postura extremamente inusitada, ou com a terna de braços, a diversidade de movimentos e propostas que podemos trazer.
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