Vinícius Pablo Zuqueto

O início do semestre se deu com a diferenciação de professores na matéria Corpo-Voz I. A parte descrita neste artigo, diz respeito a pesquisa de pós-doutorado da Professora Doutora Renata Bittencourt Meira, a qual desenvolve um trabalho autoral nos campos de estudo do movimento, educação somática, preparação corporal, controle corporal, e afins. A pedagogia corporal das Ternas, desenvolve um trabalho não cronológico, entretanto fragmentado, pois se estuda campos específicos dentro de cada Terna; uma terna se caracteriza pelo estudo voltado a uma ou mais partes do corpo, sendo elas conjuntas, ou seja, diretamente ligadas fisiologicamente ou então partes do corpo que se comunicam de alguma forma. Existem  8 Ternas a serem trabalhadas no processo de aprofundamento dessa pedagogia corporal, entre elas estão :
Terna de enraizamento
Terna de sonoridade
Terna de braço
Terna de alinhamento 
Terna de vísceras e articulações
Terna de rosto
Terna de pele 
Terna de apoios e projeções
Esse método de estudo do corpo, proporciona autoconhecimento e abrange diversos campos de ensino, devido ao fato de estar correlacionado a outros métodos, como por exemplo, movimentos vindos de técnicas de Pilates, Método Feldenkrais, Eutonia, etc.; assim com esse “diálogo” entre os métodos anteriormente existentes, e a pedagogia Ternas, os conhecimentos adquiridos são muito ricos em consciência corporal, alongamento, relaxamento, e estudo do corpo em ambiguidade, tanto quando perpassa a simplicidade e facilidade em determinados movimentos, quanto na existência de certa dificuldade em pratica-los ou as vezes nem conseguir executa-los. Dentro do estudo da Docente, foram desenvolvidas 3 qualidades de exercícios, onde se pode aprofundar em uma das 3 formas apresentadas; entretanto também se pode passar pelas 3 qualidades de exercícios, porém, com uma certa superficialidade dependendo do tempo para desenvolvimento dos mesmos, devido ao fato de ser um “leque de conteúdo” a ser trabalhado nesse contexto. O Eu Corpus, ficará bem claro nesse artigo pois é a maneira a qual meu corpo se percebe no trabalho proposto (dores, sensações, dificuldades, facilidade, noções de espaço, etc.); O Corpus Expressus, que é a maneira como você absorve as indicações dos exercícios e se expressa a partir disso; o Corpus Vistus, que é a forma a qual o público faz a leitura baseados no que o ator ou bailarino está apresentando.
Acredito que todos temos bagagens pessoais, maneiras sociais de comportar-se, vestir-se,  cuidar do próprio corpo, etc. Por muito tempo tive dificuldades em diversos aspectos físicos, como,  insuficiência respiratória, ausência de alongamento, excesso de peso, dificuldades na prática de esportes, entre outros. Ao longo do meu crescimento isso foi mudando, e eu achei que já estava tudo bem, pois alguns desses aspectos já não estavam mais presentes. 
Após chegar em Uberlândia, para ingressar na Graduação em Teatro, eu estava ansioso pois não conhecia nada na cidade, e  não sabia onde poderia ter acesso a práticas corporais e afins. Logo nas primeiras semanas, após a apresentação das matérias, fiquei animado com o desenvolvimento que a matéria Corpo-Voz I aparentava ter. Logo nas primeiras aulas práticas com a docente Renata Meira, já tive noções básicas do meu corpo, como por exemplo, onde estava fraco e necessitava de fortalecimento, onde o alongamento não estava bom, a leveza nos meus movimentos demonstrando controle corporal, o alinhamento com o quadril-tórax-cabeça, entre outras coisas pequenas. Nesse processo de criação em que me encontro, vejo a necessidade que tenho de trabalhar com as Ternas, pois por meio delas consigo organizar as partes do meu corpo como se fossem separadas, para que em um momento de minha escolha eu junte todos os movimentos trabalhados para uma composição específica; assim como é um dos objetivos principais dessa metodologia, o trabalho do ator depende “somente” do seu corpo, dessa forma, os exercícios propostos pelas Ternas, não só permitem criações corporais, composições, performances, como também é um meio de preparação e consciência do próprio corpo do ator, assim como dos outros artistas da cena; Assim fica explícito na fala da docente, em um de seus artigos: 
A prática das Ternas, como indica as ações de ensino, pesquisa e extensão em investigação, podem ser realizadas em diferentes contextos, com diferentes objetivos e tipos de trabalho. Faz parte da dinâmica desta prática a adaptação a estas especificidades contextuais, considerando as características de cada situação.
(MEIRA, Renata, TERNAS: procedimentos pedagógicos corporais para as artes numa perspectiva crítica, 2018, p.6)
O conteúdo trabalhado, tornou-se intrínseco para mim, pois involuntariamente em processos de criação livres e improvisados, eu me encontro sempre passando por movimentos que estão dentro das Ternas. Começando pelas partes superiores, quando se foi trabalhado Terna Braços e Alinhamento, uma grande consciência física foi apresentada para a turma pela Professora Doutora, mostrando como nosso corpo pode estar após um longo período de preparação do mesmo; trabalhando no nosso eixo, alinhamento pélvico X alinhamento da caixa torácica, temos um conhecimento prévio da relação física entre, púbis e cóccix, lombar, região da cintura escapular, etc.; isso é de extrema importância para que possamos cuidar do corpo de maneira correta e técnica, e não fiquemos no senso comum, pois é prejudicial. Nesse mesmo campo de estudo, foi proporcionado em aula, a questão anatômica, nome de ossos, conjuntos, músculos, ligações e articulações, o que julgo muito importante pois muitos detalhes físicos do corpo, podem estar subjetivos, por exemplo, eu não tinha um conhecimento prévio sobre alguns aprofundamentos biológicos, apresentados pela docente em sua fala sobre músculos e suas funções (claro que são outros parâmetros por haver certa falta de informação posteriormente); a partir disso vi o quanto é importante cuidar do próprio corpo, em sua força e forma, pois pós exposição do esqueleto por ossatura e músculos, houve como saber se há dores no mesmo,  se são de uma causa ou de outra, assim como também houve a possibilidade de saber se existe e onde, certos encurtamentos musculares. 
Durante esse processo de inserção as Ternas, o processo de descobrimento do braço me foi curioso, pois aprendi aspectos que nem pensava que o braço poderia ter, como a desconexão dele com os ombros, ou a questão do braço passivo, dos movimentos corporais guiados pelos braços, etc. Nas artes cênicas, acredito que muitos movimentos e composições, passam pelos braços, seja na dança,  na interpretação de um texto, ou mesmo numa cena; o desdobramento de um trabalho visando essa “ferramenta”, é bem cabível, pois é uma região de ligações, como cabeça-tórax, cintura escapular-cabeça, etc., que proporciona uma organicidade para com movimentos de todo tipo. Em minha experiência, a prática dos exercícios trabalhados trouxe uma outra concepção de braço, que não era nítida para mim até então, pois braço para mim era somente a região entre o pulso e a parte embaixo do ombro (tríceps e bíceps). Com o estudo prático pós teoria, vi que o nosso braço, tem uma extensão relativamente grande, abrangendo de nossa primeira falange até a escápula (parte posterior do corpo) e a clavícula (parte a frente do corpo); Assim com toda essa extensão mas sendo caracterizado apenas como BRAÇO, os movimentos que irão surgir dele podem ser separados pelas articulações, ou seja, dentro de uma relação de movimento, surgem outras a partir de como decidimos aplicar isso aos nossos corpos. 
Acredito que a Terna alinhamento, é em certo ponto, conjunta com a de braços, pois a partir dessas duas ternas trabalhamos durante o semestre o eixo do corpo, e o não eixo do corpo. Nosso alinhamento cintura x tórax é a base dessas duas ternas, pois no momento em que fazemos torções, ou viramos o tórax para frente e para trás, já não se trabalha mais no eixo, e sim em seu oposto. Essa Terna me proporcionou além disso, a concepção de que eu tenho obrigação em cuidar da forma do meu corpo, em como eu sento, em como minha coluna se encontra em pé ou sentado, no paralelismo dos pés e dos maléolos etc. O exercício mais marcante para mim, foi o de tentar tocar o ombro na correspondente oposta do quadril, trabalhando assim, torções, e para além, me recordou danças em ciranda, indígenas, africanas, etc. Essa terna é importante para a não organicidade dos movimentos, quando se procura algo mais enrijecido, com diferenciações, algo que não dependa do movimento anterior, essa Terna seria muito bem indicada.
Nas Ternas, Apoios e projeções, e Enraizamento, novas questões foram trabalhadas, porém, do meu ponto de vista, são mais voltadas a consciência corporal e preparação, pois na relação com o abdômen, muita força e resistência é trabalhado por meio dessas duas Ternas, o que faz com que o fortalecimento dos músculos mais usuais das mesmas, gere um desempenho melhor e uma maior força física para essas partes do corpo. Em apoios e projeções, após a sensibilização via bolinhas ser apresentada para nós, novos medos foram descobertos, mas profissionalmente os exercícios foram executados, brincando ao final deles, com metade de um membro no chão, usando só a cabeça como apoio, usufruindo e descobrindo novas formas existentes com o corpo no espaço, e em como se estabelece a relação da troca de pesos com nossos limites corporais. Nas projeções, o meu corpo se negou a ser levado pelos membros através da projeção, mas com mais práticas ele colocou-se em uma posição de uma descoberta devido a esses movimentos, pois nós fazemos projeções o tempo todo com o corpo em nossa rotina, contudo não se percebe esses movimentos pois não há uma análise e estudos específicos tradicionalmente. Com projeções, alcançamos lugares altos, viramos o corpo na cama enquanto dormimos, alongamos forçando as fibras musculares, etc.,  claro que em determinados movimentos a física manda mais do que o próprio corpo, porém eu não consegui discernir isso de maneira prática; nas aulas de apoios, senti grande dificuldade, apesar de tentar enterrar meu corpo no chão a partir de algum membro, e colocar outro membro para cima ou para o lado, mas houve certa confusão sobre diferenciar algumas coisas entre os apoios e as projeções. Os apoios auxiliam praticamente em tudo o que fazemos, desde sentar com apenas um pé no chão estando com a perna cruzada, até a distribuição de peso pelo corpo em determinados lugares; com isso se pode observar que a prática do equilíbrio e o eixo do corpo vem juntamente a isso, pois para distribuição de peso, é necessário um eixo onde possa se colocar o parâmetro de para onde se tem mais ou menos, e o equilíbrio se torna necessário para sustentar essa oposição de pesos.
No enraizamento eu revisitei um lugar de conforto, pois durante alguns anos, fiz capoeira, que é uma luta que trabalha expressões corporais muito variadas em seus movimentos, sendo pequenos, grandes, com o pé todo, com apenas o metatarso sendo o apoio central, como no caso da ginga, etc. Senti familiaridade em usar o metatarso, mas confesso que achei novo a ideia de fazermos a curva no pé, usando a relação Metatarso X Calcanhar, pois achei que era algo natural do corpo, e que não precisaria mudar. Essa é uma das Ternas que mais me identifiquei, pelo fato dela também trabalhar com os equilíbrios corporais e usar alguns outros traços de todas as outras Ternas. O equilíbrio dá-se pela ausência de peso, ou sobrecarga dele, então a percepção do corpo no espaço, é necessária para que saibamos colocar os devidos pesos nos lugares certos, e não nos descontrolemos numa sequência de movimentos por exemplo. O exercício de “Aviãozinho” me trouxe um conforto, apesar de eu ter dificuldade em colocar em paralelo as Cristas Ilíacas com o chão; acredito que é um dos exercícios trabalhados que mais trazem oportunidades de movimentos, pois o corpo está no plano médio e em equilíbrio, existem diversos movimentos para surgirem a partir desta posição em um processo de criação por exemplo.
A Terna rosto foi uma das mais difíceis para mim de alguma forma, no processo de criação de máscaras em frente ao espelho, eu tive a sensação de nunca conseguir atingir cem porcento das indicações da docente. Uma coisa que me intrigou muito foi a sensibilização do rosto antes de começarmos a fazer os moldes do mesmo; os toques, as pressões, os puxões reverberaram somente quando fomos no espelho, pois sentíamos a facilidade em projetar devido ao aquecimento da musculatura facial. Esse processo de criação para mim foi incrível, pois trabalhamos uma percepção lúdica e fisiológica ao mesmo tempo, o que não acontece de maneira explícita sempre. Foi muito gratificante trabalhar nosso lado criativo, e deixar os processos de composição acontecerem entre os colegas de turma. Acredito que seja uma das Ternas mais importantes no contexto de que somos artistas da cena, e as expressões são nossa primeira imagem do que se vê em palco, como se fosse a manchete de um jornal, então torna-se essencial o estudo delas, e a Terna rosto proporciona isso muito bem.
A Terna de sonoridades foi o auge da matéria para mim; fez muito sentido o trajeto que traçamos, pois usamos várias ternas para contextualizar a Terna de trabalho daquela aula específica. Passando entre apoios e projeções, alinhamento, enraizamento, braços, e rosto, colocamos som ao movimento específico pedido pela docente, trabalhando o corpo e a voz, o que sempre me lembra do “link” com a outra parte da disciplina, situada com outra docente. A sonoridade é bem complicada para mim, pois me encontro tímido em alguns aspectos, ou até mesmo inseguro, por não ser tão bom quanto alguém que teve acesso a aulas de canto em sua vida pessoal; contudo não me deixei levar por essa linha de raciocínio, me entreguei aos exercícios propostos, a voz fluiu de acordo com o requisito dos exercícios. É sempre bem excitante a parte de voz da disciplina, pois não se sabe ao certo o que será trabalhado; nas Ternas por exemplo, acontece casos em que a aula é voltada à pele, e o som acaba entrando no meio desse caminho de alguma forma, como por exemplo, o exercício de desconexão entre palavras-chaves faladas por cada aluno para a construção de alguma linha lógica, porém não trabalhando a voz diretamente, mas como coadjuvante nesse contexto. 
A parte de vísceras e articulações foi interessante até certo ponto para mim, pois encontrei na parte de movimentos uma qualidade expressiva por meio das articulações, que me proporcionava liberdade de criação sem parâmetros a serem seguidos, a não ser as articulações. O processo das vísceras para mim não ficou muito claro, pois usamos uma coreografia no desenvolvimento da aula, que para mim estava mais vinculada a Terna de pele, do que especificamente as vísceras do corpo, por mais que as tenhamos sentido no começo da aula. 
A Terna de pele me trouxe várias sensações , pois usávamos a sensibilidade para acordar o corpo, e como Debora Pereira Bolsanello diz em seu artigo “Educação somática: o corpo enquanto experiência”, a pele é capaz de sentir muitas coisas, e aguçar ainda mais outras, como por exemplo, quando não se tem a visão, isto é, encontra-se uma sensibilidade além da que as pessoas com visão podem ter. A pele opera olfato, paladar, audição, etc.,  e pode trazer um corpo mais atento, dependendo da forma como se trabalha com o mesmo . Trabalhamos 2 qualidades que trouxeram local individual para cada ator, e sentimentos específicos, como por exemplo, a de afeto, e repúdio, que encaminhou para um processo de pré-criação de alguma persona, a retratando com aquela qualidade mutável que a docente aderia. Isso foi muito bom, porque o próximo passo foi o relaxamento no chão, após todas aquelas sensações indo e vindo, o contato da pele com  o chão, apresentou certa calmaria.
O meu processo vem sendo bem curioso, pois passei a aceitar minhas dificuldades e limites, então sinto apenas a necessidade de forçar para repetição acontecer, para melhorar meu alongamento, memória corporal e expandir de pouco em pouco meus limites. Acredito que por mais que alguns movimentos já fossem conhecidos por mim, os outros que não eram conhecidos, chegaram com um impacto alto, o que corrobora para esses novos ganharem um espaço dentro de mim, e para o aperfeiçoamento dos já trabalhados antes. Essa construção se mostrou muito íntima, e acredito que cada um tem sua maneira de construir esse processo todo, então minha conclusão baseia-se no meu próprio EU, do meu interior para o meu exterior, e de como um pode ensinar ao outro.  

Referências 

MEIRA, Renata Bittencourt. Ternas: Procedimentos Pedagógicos Corporais para as Artes numa Perspectiva Crítica. Disponível em: https://sites.google.com/view/ternas-pedagogia-corporal/biblioteca?authuser=0 

BOLSANELLO, Debora Pereira. Educação somática: o corpo enquanto experiência. Disponível em: https://sites.google.com/view/ternas-pedagogia-corporal/biblioteca?authuser=0

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