O semestre em palavras: Relatório final por Fernanda Soliveira
Quando eu era pequena, num momento muito distante do qual eu nem mesmo posso me lembrar, antes ainda de aprender a formar frases completas e me expressar verbalmente, aprendi uma ação que irei executar pelo resto da minha vida, o caminhar. Passei pelo processo comum, apoiar-me em meus braços, engatinhar, cair de bunda no chão, descobrir o equilíbrio e por fim, colocar um pé a frente do outro ao andar e assim o caminhar se tornou algo natural, não precisava mais ser pensado.
No momento em que começamos os estudos do corpo e passamos a racionalizar estes movimentos que nos são comuns, criamos a possibilidade de entender e acerta-los da maneira menos prejudicial ao nosso corpo, Debora Bolsanello em seu artigo A Educação Somática e os Conceitos de Descondicionamento Gestual, Autenticidade Somática e Tecnologia Interna (BOLSANELLO, 2011), nos traz o exemplo de um pianista que possui uma deformação na coluna advinda dos anos tocando e repetindo um movimento que tensiona o músculo e acaba por desgasta-lo, a partir desse exemplo ela nos apresenta o caminho da educação somática: sentir, perceber e reaprender.
Pensando nesse caminho descrito pela Bolsonello, durante a pesquisa de investigação do meu próprio corpo no decorrer das aulas, me coloquei a investigar o meu caminhar, dessa forma, pude: sentir a forma como meus pés tocam o chão e então perceber que meus joelhos tendem a fechar, que eu piso apoiando primeiro a lateral dos pés e isso gera um desequilíbrio no meu caminhar e com base em tudo isso reaprender, corrigindo os joelhos, dando mais atenção aos arcos do pé e endireitando tudo sempre que percebo o erro.
Os percalços das Ternas nesse semestre me trouxeram uma relação muito mais íntima com meu corpo e os saberes da anatomia foram partes essenciais deste processo. A descoberta de como cada osso, órgão, articulação está associado na criação de um movimento, nos leva a uma nova perspectiva de experimentação e gera a possibilidade de construir mais opções, nas Ternas de Braço, por exemplo, eu passei mais da metade da aula pensando como movimentar meus braços, sem movimentar minha mão e quando nós paramos pra estudar toda a composição desde a cintura escapular, as escápulas até os metacarpos e falanges, eu pude trabalhar movimentos mais fluídos e entender melhor os deslocamentos pensando em alternar tônus, velocidade, sustentação e etc.
É isso também, que nos faz avaliar melhor nossas limitações e vícios do corpo. Lendo o artigo Bolsanello(BOLSANELLO, 2011), me senti contemplada pelo entendimento da mesma que discorre acerca da relação entre a indústria que vende sobre os nossos corpos e a forma de exercita-los/movimenta-los e como esses exercícios partem de uma proposta semelhante as dos gestos dos trabalhadores de fábricas. Pensar em como o capitalismo dita de maneira extremamente prejudicial os nossos ideais de corpo e as propostas de como cuida-lo através desse modelo de vida fitness, me gerou um olhar muito mais concreto sobre o estudo da educação somática.
Pensando no que ela chama de “Autenticidade somática” voltei a analisar as questões que rondam o simples ato de caminhar. Quando aprendi a andar, eu olhei aqueles que constantemente estavam ao meu redor, e foi a partir desse reconhecimento que se geraram as minhas "caras e bocas" também conhecidas como máscaras sociais e até o meu andar torto de joelhos fechados, pode-se perceber que estão expressos nos caminhares de minhas tias, de minha mãe e também de minha avó materna. Nós sabemos que a construção das questões acerca da nossa postura, estão intrinsicamente ligadas as questões sociais que nos permeiam. Quanto seu corpo fecha-se a partir da sua timidez? Quanto do seu encurtamento está associado a uma vida inteira de cercas? "Feche as pernas", "seja discreta" e assim nos nãos que recebemos acabamos por não explorar nossas possibilidades e nos moldar diante do que é esperado do nosso corpo dentro dessa sociedade e ainda sim permanecemos singulares.
Sendo uma menina negra que durante toda a infância viveu cercada das afirmações de que a definição do belo eram as Barbies e Hanna Montanas e que desde de muito jovem teve que lidar com os assédios, desenvolvi muitos complexos com meu corpo, os problemas de autoestima que rompem a barreira do psicológico e alojam-se no físico foram grandes adversários nesse processo... O medo de ser julgada executando um ou outro movimento, a vergonha por não ser alongada aqui ou ali, uma fobia irracional de cambalhotas, que infelizmente eu não superei, eram constantes nas aulas, afinal, o corpo não chega até a sala de aula cru, temos uma vivência prévia de traumas e boas memórias que nos cercam nesse aprendizado. Tive algumas dificuldades que não foram superadas, a Terna de pele, por exemplo, me gerou um incomodo e uma ansiedade muito grande, todo o processo de sensibilização, de deixar o tato mais atento fez com que eu me sentisse presa dentro do meu próprio corpo. Na verdade, havia pensado em escrever aqui, que eu não entendia a função dessa Terna em específico, mas pensando em como o tato e as sensações ainda que ruins geraram novas experimentações de movimento, agora faz sentido pensar na pele como parte do estudo do corpo e parte da engenharia dos movimentos.
Nesse sentido, algumas experiências foram ainda mais gratificantes nesse processo de estudo através das Ternas, as de rosto são um bom exemplo, perceber as máscaras que eu uso corriqueiramente para me expressar através dos olhos dos meus colegas, me fez perceber o quanto eu as reconheço de outros rostos. O portfólio que fizemos das posições de controle, do mesmo modo, me foi muito satisfatório, pude reconhecer o potencial do meu corpo e descobrir que eu tenho sim, algumas partes dele bem alongadas, nesse dia, anotei em meu Caderno do Eu que me sentia muito grata por ter me reconhecido sem todos os julgamentos que me faço constantemente e lembrei de um trecho da música “O Corpo” do Paulo Moska:
“Meu corpo vai quebrar as formas Se libertar dos muros da prisão Meu corpo vai queimar as normas E flutuar no espaço sem razão Meu corpo vive, e depois morre E tudo isso é culpa de um coração Mas meu corpo não pode mais ser assim Do jeito que ficou após sua educação”
As Ternas me trouxeram a proposta de estudar e conhecer melhor as possibilidades do meu corpo e até brincar realmente com elas. Pra uma descoberta mais poética e sensível. Trabalhar sonoridades por exemplo, pra mim é sempre um prazer. Explorar as alternativas de brincar com percussão corporal para criação e estender isso a minha voz é uma atividade que desperta minha criatividade mais facilmente. Associei as Ternas de Sonoridades, Enraizamento e Projeção com as aulas de Jongo e Coco que tive no ensino técnico de Artes Dramáticas, pensando na projeção dos braços, junto com os movimentos de empurrar o chão ou de pisar “profundamente” e ligando essa mecânica aos ritmos.
Por fim, apesar das ótimas experiências gostaria de poder me aprofundar mais nos estudos do movimento, gostaria de ver a possibilidade de desenvolver esse trabalho para turmas mais avançadas, por exemplo. As Ternas têm muito tato no que tange respeitar os limites dos que estão pouco habituados a esse tipo de aula, mas gostaria de me aprofundar mais no trabalho corporal no decorrer dos próximos semestres sob essa mesma ótica para descobrir se permaneceria a riqueza dos resultados.
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